Lateral do Ceará, Sánchez revela como Dimas Filgueiras, fé e estudo marcam carreira

Jogador de 30 anos voltou ao clube em fevereiro deste ano

Escrito por Crisneive Silveira e Giovanna Borges jogada@svm.com.br
25 de Setembro de 2026 - 17:00 (Atualizado às 17:07)
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Legenda: Sánchez, lateral do Ceará, fala da importância de Dimas Filgueiras para a carreira.
Foto: Kid Junior/SVM

Sánchez é “filho do sagrado”. O lateral-esquerdo do Ceará não poderia ser batizado de forma mais adequada à história que tem escrito. O jogador de 30 anos traz no discurso e na vida os ensinamentos do catolicismo. Nascido em Cascavel, município a 60 km de Fortaleza, o camisa 12 do Vovô lembra com carinho de Dimas Filgueiras, reforça o valor do estudo e do apoio da família.

“Sou um homem de Cascavel, no Ceará. Todo mundo da cidade sabe o que eu fiz dos meus primeiros anos até os 20, na pracinha do Maninho, chutando bola. Era muito fácil me ver correndo na rua”, lembra o atleta. 

“Sou um católico consciente das coisas que eu faço. Procuro fazer com que o futebol me torne mais católico ainda, porque a minha vida é baseada nisso. Desde que eu realmente me converti ao catolicismo, comecei a entender que o futebol era mais do que um esporte. Para mim, o futebol é um meio também de mostrar Deus na minha vida, é mostrar as coisas boas que Deus faz na minha vida e, até nas dificuldades, glorifico muito o nome dEle”, completa.

Sánchez durante jogo da base alvinegra.
Legenda: Sánchez durante jogo da base alvinegra.
Foto: Divulgação/Ceará SC

DIMAS FILGUEIRAS ABRIU A PORTA

A bola nos pés veio cedo, aos seis anos. O pai, Clairton, era o treinador. Trabalhava os fundamentos na pracinha em frente de casa. Começou no futsal, evoluiu e seguiu para o futebol, na escolinha do Mansueto, no município onde morava e se destacou. Ao notar que o filho poderia ter uma chance no esporte, o pai avisou:  "Procura treinar bem."

“Ele só falou isso. O que eu fiz? Falei com os meninos que iam correr de Cascavel a Barra Nova, uns 10 km. Eu tinha 14 anos. Avisei ao meu pai um dia antes e fui. (...) Isso, de certa forma, me preparou, porque, dois dias depois, ele (o pai) me trouxe para o CT do Ceará para assistir a um treino do profissional e pediu para eu trazer a chuteira. E eu vim saber disso muito depois”, lembra o atleta.

Na época, o lendário Dimas Filgueiras treinava o time principal do Ceará. Foi então que faltou jogador para completar um dos times durante as atividades. Era a vez de Sánchez, que ainda atuava como atacante, para suprir a vaga. 

“E, nesse dia, eu fiquei no treino para completar o time. Fiz dois gols no time titular do Dimas. Se eu ficar falando do Dimas, vou me emocionar. Ele é como se fosse um pai para mim aqui”, destaca o jogador com a voz embargada. 

“Ele era bem rígido, mas, se tinha uma coisa que tínhamos em comum, era disciplina. (...) Ele abriu a porta e é como se ele tivesse me colocado embaixo do braço dele. Ele me deixava errar e me dava apoio para continuar. E, no momento em que eu estava fraco, ele me fortalecia. Sempre que ele precisava me cobrar, ele sabia a forma que eu ia escutar. Era alguém que queria que eu evoluísse”, completa.

Sánchez durante treinamento no Ceará em 2016.
Legenda: Sánchez durante treinamento no Ceará em 2016.
Foto: Arquivo Pessoal/Sánchez

ESCOLHA

Sánchez era um dos poucos da base do Ceará com contrato na época. Aos 17 anos, aconselhado pelos pais, seguiu os estudos enquanto não se firmava no profissional. Usou o dinheiro que recebia no Vovô para custear um cursinho. Foi aprovado em Engenharia Civil na Unifor e em Economia na UFC, mas escolheu a primeira opção pela logística favorável aos treinos. 

“Acordava às 5 da manhã, treinava de manhã no CT da Itaitinga, almoçava, ia para a Unifor e depois voltava. E, quando tinha treino no profissional, ia de manhã para lá, treinava no CT e depois ia à faculdade. Tinha dias que eu realmente saía de casa às 5 horas e chegava às 11 da noite. E eu conseguia ainda ir bem na faculdade. Fiz quatro semestres e não reprovei nenhuma matéria”, relembra.

Sánchez durante treinamento na base do Alvinegro.
Legenda: Sánchez durante treinamento na base do Alvinegro.
Foto: Arquivo Pessoal

Faltando dois meses para o fim do contrato no Vovô, em 2016, Sánchez estreou no time principal. Foi bem, apesar da derrota do time para o Bahia, por 3 a 1, pela Série B. O vínculo com o clube foi renovado. Era a hora de dar um tempo da faculdade e deixar o futebol ser o protagonista na vida dele.

HERANÇA DO ESTUDO PARA O FUTEBOL

Sánchez celebra a herança deixada pelos estudos e até as dificuldades que passou enquanto se empenhava nas duas atividades. 

“Pude ver que muita gente segue certos sonhos e tem que se pagar preço para isso. (...) Se eu tivesse escolhido a engenharia e não o futebol, seria difícil igual. Mas seriam outras dificuldades”, afirma. 

“E pensei: ‘Eu amo estar no Ceará, eu amo jogar futebol, eu amo toda a dificuldade que tem nele. Seja crise, seja título, seja acesso, seja briga por tudo. O futebol é isso. Eu amo participar disso. Então, que eu sofra por algo que realmente amo. E foi por isso que resolvi ficar no futebol. E a faculdade me ajudou muito, porque hoje eu sou um leitor ávido”, completa o jogador que chega a ler 40 livros por ano.

Desde que voltou ao Ceará, em fevereiro deste ano, o jogador atuou em 25 partidas, tem um gol marcado e pode se tornar peça mais constante no time de Daniel Paulista. Antes, ele passou por equipes como Figueirense, Portuguesa-RJ, Vitória, Ferroviária, Volta Redonda e Noroeste. O atleta explica como enxerga a modalidade.

“O futebol, ao meu ver, está sendo muito pensado. Está evoluindo de uma forma em que os clubes estão bem organizados taticamente. Como era um jogo muito físico, quem consegue pensar durante um período em que está todo mundo nervoso, todo mundo querendo provar alguma coisa, quando você tem um pensamento diferente e consegue enxergar certas coisas, isso ajuda”, completa.

“Acredito que o futebol está indo muito para um lado de: "Eu tenho que pensar melhor e mais rápido do que o outro." Acredito que a gente pode encontrar formas de fazer isso fora de campo para potencializar isso dentro de campo”, destaca.

Sánchez durante jogo da base alvinegra.
Legenda: Sánchez durante jogo da base alvinegra.
Foto: Divulgação/Ceará SC

SÁNCHEZ E A FAMÍLIA

Depois de dez anos longe, retornou para perto da família. Não tem saudade que caiba em tanto tempo distante. Clairton é o técnico mais exigente do lateral do Ceará. 

“No último jogo agora ele falou: ‘Macho, o Melk estava aqui do teu lado, se tu toca para ele e vai por dentro, ele te achava.", revela o comentário do pai após a vitória do Vovô por 2 a 1 diante do Novorizontino. 

“Minha mãe reza que é uma barbaridade. Ela não consegue assistir ao meu jogo por ser hipertensa, mas pode ter a certeza de que meu pai está assistindo, minha irmã está assistindo e ela está no quarto rezando. Isso aí é certo”, brinca o jogador.

“Minha irmã é uma torcedora que eu tenho que ficar assim: "Cora, tenha calma." A relação com a minha família é pressão, não tem paz”, destaca.

Clairton escolheu o nome Sánchez. Um jogador de futebol mexicano, que o pai admirava, inspirou a decisão. Sánchez tem origem espanhola e significa filho de Sancho, que vem do latim sanctus. Assim, o significado remonta a “filho daquele que é sagrado/santo”, de acordo com a Real Academia Española.

“Eu gosto do meu nome. Confesso que eu tenho dificuldade até no jogo. Às vezes, naquele aperreio, sai um "Shances", sai um "Shanche", sai tudo, menos Sánchez, mas faz parte”, brinca.

Sánchez ao lado de Neymar em jogo amistoso.
Legenda: Sánchez ao lado de Neymar em jogo amistoso.
Foto: Arquivo Pessoal

ENCONTRO COM NEYMAR E MARCELO

Sánchez estava num amistoso do Ceará Sub-20 em Ubajara. O lateral da época não se sentiu bem e o jogador, que era atacante, atuou na posição pela primeira vez. Então surgiu a chance de enfrentar a Seleção Brasileira num amistoso. O primeiro pensamento do jogador foi: 

"Cara, vou jogar de lateral-esquerdo, nunca marquei em competição, aí vou ter que marcar a Seleção Brasileira", lembra o atleta.

“O Marcelo (ex-lateral da Seleção) perguntou a minha idade. Eu tinha 18. Aí ele falou assim: "Só se for de carteira assinada." Pensei: ‘Deve ser um elogio, né?", relembra.

O encontro com Neymar foi rápido, mas deu tempo para o registro. 

“Na foto em que eu aperto a mão dele, ele está no colchonete, eu pergunto assim: "Vai treinar?" Aí ele: "Não vou." Aí eu: "Graças a Deus”, brinca. 

“A conversa foi só essa porque não deixaram a gente conversar mais. Mas quem não deixou foram os outros meninos, me empurrando. Foi um dia maravilhoso”, finaliza.

Sánchez deve entrar em campo novamente neste sábado (26), quando o Ceará enfrenta o Operário-PR. O duelo será no Estádio Germano Krüger, a partir das 16h30 (de Brasília).

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