Ema EC: Time de Pindoretama com 110 anos é uma das equipes amadoras mais antigas do país

O Ema atravessa quatro gerações da família Cassimiro e joga em um estádio próprio centenário

Escrito por Crisneive Silveira crisneive.silveira@svm.com.br
30 de Setembro de 2026 - 10:00 (Atualizado às 14:49)
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Legenda: Time do Ema após vice no Campeonato Municipal de Pindoretama.
Foto: Arquivo Pessoal

Na terra adoçada pela cana-de-açúcar, o futebol foi plantado como tradição. O Ema Esporte Club, de 110 anos, traz a história da família Cassimiro e reflete a paixão pelo Fortaleza EC no escudo e nas cores. Fundado em Pindoretama, cidade a 50 km da capital cearense cercada por canaviais, a equipe segue em atividade, testemunhando a vida das pessoas e da localidade. O clube é uma das equipes amadoras mais antigas do Brasil, com mais tempo de campo do que muitos gigantes.

O time nasceu em 7 de julho de 1916 e leva o nome da localidade de Ema. A ave era comum na zona rural. Na época, a região fazia parte do município de Cascavel. No entanto, em 1987 Pindoretama emancipou-se e, em 2005, a comunidade tornou-se oficialmente distrito da cidade.

“Pindoretama fazia parte Cascavel. Meu sogro pegou (o time) do meu avô, do meu sogro passou pra mim e estou há 52 anos à frente. Luís Camilo, meu tio, foi o fundador. Depois passou para Francisco Custódio e depois para mim, Raimundo. Nessa época não tinha chuteira, jogava descalço”, relembrou Seu Raimundo Cassimiro, que está prestes a completar 74 anos. 

Família Cassimiro durante celebração dos 100 anos do Ema Esporte Club.
Legenda: Família Cassimiro durante celebração dos 100 anos do Ema Esporte Club.
Foto: Arquivo Pessoal

Ema

Raízes no quintal de casa


Quem já passou pela rodovia CE-040 já deve ter sentido o cheiro adocicado do melaço da cana e observado o escudo muito semelhante ao do Leão do Pici. Impossível não associar. A família Cassimiro mora ali. Enquanto caminha pela própria casa, Seu Raimundo mostra como o futebol é extensão da família. 

Alguns passos depois, abre a porta e já está no Estádio Franciscão. Com sorriso no rosto, mostra o espaço batizado com o nome do sogro. O mascote também é um leão - apesar do time ter o nome de uma ave. As cores e o escudo do time só vieram em 1997, inspirados no Fortaleza, clube para o qual a família torce igualmente. A iniciativa foi do Seu Raimundo.

“Pindoretama tem 32 times (de futebol amador). De campo murado, só o Ema e o Asseema - maior rival. O terreno era do meu sogro. O time passou por três locais e chegou ao terreno dele. E a essa altura está com 110 anos”, ressalta com orgulho.

“O símbolo do Ema é o mais bonito que você vai ver. O campo é aqui, colado na casa. Esse local, só de campo de jogo, tem 100 anos. A terra é direto, desde o começo”, completou.

A equipe é uma das mais tradicionais do futebol amador da região.
O Ema leva o nome de um distrito da cidade de Pindoretama, no Ceará.
A equipe tem as cores e o símbolo inspirados no Fortaleza Esporte Clube.
o Ema Esporte Club foi fundado em 1916, na cidade de Pindoretama.
A família Cassimiro fundou o Ema e segue cuidado do time.
Em 1997, o Ema fez a final do Campeonato Municipal contra o Pindoretama e foi derrotado.
Legenda: Ema Esporte Clube tem 110 anos de história no futebol amador
Foto: Arquivo Pessoal

Ema

História preservada

A história do time passa de geração em geração, contada pela memória de quem viveu as transformações do local e viu no esporte uma ferramenta a mais de pertencimento àquela terra. Seu Raimundo divide a casa com a esposa Lenir e Gabriel, um dos netos. No mesmo terreno, moram o filho dele, Raimundo José, e outro neto, Juliano. Ele é operador de máquinas, atua como lateral-direito e preside o time. Função exercida desde 2014. 

“Para mim, ajudar a manter viva essa história e a tradição da família representa um profundo compromisso com a continuidade, o respeito e a identidade”, afirma Juliano, de 26 anos.

O time é dois anos mais jovem que o Tricolor do Pici, de acordo com a história preservada pela família. O Ema também surgiu antes de outras equipes tradicionais do Brasil, como Cruzeiro (105 anos), Athletico-PR (102 anos) e São Paulo (96 anos). 

A Liga Nacional de Futebol Amador (Linfa) planeja a realização de um censo nacional para mapear ligas e times, além de apoio na elaboração de estatutos e regularização. Entre os clubes amadores, o Leão de Pindoretama aparece entre os mais longevos em atividade. Em registro encontrado pela reportagem, há o Santa Marina Atlético Clube (SMAC), fundado em 1913 (SP). Assim como o E.C. Esperança (RS), criado no mesmo ano. 

“É difícil apontar qual é o clube mais antigo. Com certeza, podemos ter clubes mais antigos, em atividade, mas sem um registro das datas ou mesmo qualquer apoio para assegurar sua representatividade. Do que sabemos a partir de trabalhos e pesquisas mais recentes, Santa Marina e Esperança são exemplos de clubes que representam um primeiro período de consolidação do futebol nas cidades brasileiras”, afirma Enrico Spaggiari, Doutor em Antropologia Social (USP) e pesquisador do Instituto Ludopédio.

“É o time mais velho da cidade. Fomos seis vezes campeões. O Ema fez história em Pindoretama. Quando ia jogar contra o Pindoretama, a turma se resguardava para jogar”, afirma Seu Raimundo.

“Sobre papelada, eu não tenho. Tem a história. Mas a papelada eu não tenho. Nós temos guardadas as 34 camisas do time”, completa. 

Assim, enquanto a bola rolava pelos campos, a história era e tem sido preservada pela tradição oral. O pesquisador explica quão frequente é a falta de documentos que atestem a fundação de um time amador.  

“Infelizmente é muito comum. Tanto porque os registros são, muitas vezes, orais ou mesmo porque registros escritos ou visuais se perderam ao longo do tempo. Pesquisas mais recentes têm buscado explorar outras formas de registro, ampliando o que entendemos como fontes oficiais”, destaca o antropólogo.

Agenda de jogos do futebol amador publicada na edição do Diário do Nordeste do dia 22/09/2001. Mais um registro do duelo Ema x Pindoretama.
Legenda: Agenda de jogos do futebol amador publicada na edição do Diário do Nordeste do dia 22/09/2001. Mais um registro do duelo Ema x Pindoretama.
Foto: Arquivo Diário do Nordeste/Pesquisa Mariana Gomes

Ema

Legado, presente e importância

O estádio do Ema fica a 500 metros de um engenho de cana-de-açúcar, principal fonte de renda de Pindoretama. Seu Raimundo dedica tempo ao time, mas o ofício dele é fabricar anéis de cacimba. Anos atrás, defendia o manto tricolor.

“Eu jogava, era zagueiro. Eu era o dono, mas era o treinador quem colocava o time no campo. Perdemos o campeonato. Tem fita gravada. Quando estou com saudade de ver, vou ali no menino, e ele passa para eu ver”, relembra.

Edição do Caderno Jogada do Diário do Nordeste, de 07/11/1997, traz uma nota sobre a partida do Ema contra o Pindoretama. O texto estava na coluna de Silvio Carlos.
Legenda: Edição do Caderno Jogada do Diário do Nordeste, de 07/11/1997, traz uma nota sobre a partida do Ema contra o Pindoretama. O texto estava na coluna de Silvio Carlos.
Foto: Arquivo Diário do Nordeste/Pesquisa Mariana Gomes

Uma partida marcante na memória de Seu Raimundo ocorreu em 1997, no Estádio de Pindoretama, contra o time que leva o nome do município. O Diário do Nordeste registrou o confronto.

“Nós jogávamos pelo empate na decisão do campeonato. A gente fez o primeiro gol, Pindoretama empatou e virou para 2 a 1. Mas ficou na história. Nesse dia, tinha gente de Cascavel, do Iguape, Tapera... De todo canto”, lembra Seu Raimundo.

Atualmente, o Ema tem 28 jogadores e não deve entrar em campo para uma disputa em 2026. Na casa do Seu  Raimundo, onde funciona a sede do time, uma sala protege o passado e espera pelo futuro. São troféus, fotografias e paredes testemunhas do que o esporte traz: comunhão.

“O povo gosta do Ema. Os mais velhos acompanham. Agora estão jogando amistosos, mas devem voltar a disputar algum campeonato logo”, afirmou Seu Raimundo. 

A cada apito, o Ema escreve mais um capítulo do futebol democrático, daquele que encontra o seu povo. O pesquisador reforça o peso do esporte vivido além das arenas modernas. 

“O futebol de várzea ou futebol amador foram fundamentais para a consolidação do futebol como fenômeno sociocultural no Brasil. Para além da esfera espetacularizada, esse futebol popular deve ser entendido não só como prática do jogar ou torcer, mas como um modo de vida, que articula diferentes dimensões da vida social nos diferentes contextos em que o futebol é vivido”, finaliza Spaggiari.

A equipe é uma das mais tradicionais do futebol amador da região.
O Ema leva o nome de um distrito da cidade de Pindoretama, no Ceará.
A equipe tem as cores e o símbolo inspirados no Fortaleza Esporte Clube.
o Ema Esporte Club foi fundado em 1916, na cidade de Pindoretama.
A família Cassimiro fundou o Ema e segue cuidado do time.
Em 1997, o Ema fez a final do Campeonato Municipal contra o Pindoretama e foi derrotado.
Legenda: Ema Esporte Clube tem 110 anos de história no futebol amador
Foto: Arquivo Pessoal

*Arte: Louise Dutra/SVM

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