Bloco de condomínio com risco de colapso é evacuado em Fortaleza

Pelo menos 60 moradores precisaram sair de suas casas após análise de engenheiro estrutural.

14 de Outubro de 2026 - 18:42
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Legenda: Torre de um dos blocos foi evacuada na terça-feira (13), e há possibilidade de nova evacuação ainda nesta semana.
Foto: Kid Jr.

Um dos blocos do condomínio Jardim Monte Castelo, localizado na divisa entre os bairros São Gerardo e Monte Castelo, em Fortaleza, foi evacuada na tarde da última terça-feira (13), após o engenheiro responsável pelas obras de emergência no local constatar problemas graves na superestrutura do bloco, ou seja, na parte construída acima do solo. Ao todo, 16 unidades foram esvaziadas e cerca de 60 pessoas foram impactadas. 

O Diário do Nordeste foi até o residencial na tarde desta quarta-feira (14) para conversar com moradores e a equipe responsável pelas obras. Os condôminos relatam a tristeza de ver o local na situação que se apresenta, uma vez que parte deles vive no residencial há anos. Uma das moradoras detalha que eles já organizam planos para caso precisem sair de suas casas.

Construção erguida na década de 1980, o residencial Jardim Monte Castelo abriga cerca de 300 pessoas em 10 blocos. Ele teve risco de colapso reconhecido na semana passada, após o chão começar a ceder e rachaduras profundas serem registradas.

Residencial tem 40 anos e cerca de 300 moradores.
Legenda: Residencial tem 40 anos e cerca de 300 moradores.
Foto: Kid Jr.

Na quinta-feira (15), a segunda torre do mesmo bloco será vistoriada, e há possibilidade de nova evacuação, segundo Pablo Torres, engenheiro estrutural que acompanha o caso.  

As obras emergenciais para reparar os danos do condomínio devem durar de seis a oito meses, diz Torres. Os problemas foram detectados a partir de uma inspeção predial que detectou problemas de fissuras, rachaduras e a necessidade de correção em um dos pilares do residencial.

Inspeção predial detectou afundamentos e problemas no solo

Obras emergenciais visam tornar condomínio seguro novamente.
Legenda: Obras emergenciais visam tornar condomínio seguro novamente.
Foto: Kid Jr.

O síndico profissional Anderson Almeida, que administra o condomínio desde o primeiro semestre, explica que descobriu “a herança” deixada pela gestão anterior após uma inspeção predial, que detectou afundamentos e problemas no solo, além da necessidade de uma análise mais detalhada.

Ao contratar um engenheiro estrutural para avaliar os riscos, a administração constatou a gravidade dos problemas. 

O estudo constatou que havia uma série de irregularidades no solo do residencial, o que resultou na obrigatoriedade de uma contratação emergencial de uma obra de reforço de fundação. 

“Se você tem uma alvenaria estrutural, o que suporta o próprio peso são as próprias paredes, você tem que reforçar a fundação para depois fazer os outros serviços. Quando a gente começou a fazer os serviços, foi visto que esses pilares eram para ter sido feitos reparo no ano passado, eles estavam muito graves. Aí teve a necessidade de evacuar o prédio nesse espaço de tempo de ontem para hoje”, explica Almeida.

Engenheiro estrutural responsável pela obra apontou problemas estruturais graves no residencial.
Legenda: Engenheiro estrutural responsável pela obra apontou problemas estruturais graves no residencial.
Foto: Kid Jr.

O engenheiro Pablo Torres detalhou que o bloco evacuado tem a pior situação de problemas na superestrutura. “Estamos lutando para não ter que evacuar o lado de trás do bloco amanhã. Mas há uma grande possibilidade que amanhã, ao meio-dia, tenha gente saindo daqui”, afirmou.

No momento, os moradores da torre evacuada podem entrar em seus imóveis em dois horários, um pela manhã e um à tarde, para pegar pertences. Não há previsão ainda, no entanto, de quando poderão voltar às suas casas com segurança. Os demais blocos seguem sem interdições, mas estão sob análise da equipe de engenharia que está à frente das obras emergenciais. 

'Muito difícil ver nosso lar ruir'

Uma das moradoras do prédio, que não quis se identificar, relatou o sentimento de medo e frustração ao acompanhar a evacuação da torre, que fica próxima ao apartamento onde ela vive com sua família há anos. Ela afirmou ter receio de que a torre onde vive seja evacuada e lamentou que muitos moradores talvez não tenham para onde ir caso precisem sair de seus apartamentos.

“É muito difícil ver tudo que foi construído, o nosso lar, ruir. É muito bom ter a transparência do engenheiro, a gente ter a possibilidade de conversar com ele e tudo, mas realmente é algo muito frustrante. Pra minha família está sendo muito difícil a gente pensar que pode acontecer algo pior”, comentou.

A moradora, que vive no prédio desde a infância, afirma que problemas estruturais são recorrentes no local, mas que sua família nunca soube que eles poderiam ser tão graves. Ela ressaltou que ficou surpresa quando soube do risco de queda de parte do residencial.

“Não é falado de agora, mas de anos atrás, de outros síndicos. Mas era feita uma 'maquiagem estrutural', e não resolvido o problema mesmo. Isso causa pra gente ainda mais insegurança, a gente não sabe no que confiar e só entrega nas mãos de Deus mesmo”, afirmou.

Em nota, a Defesa Civil de Fortaleza afirmou que acompanha o processo de análise estrutural do condomínio Jardim Monte Castelo.

“Segundo o relatório emitido no início deste mês de outubro, não foram identificados fatores de risco que implicassem em interdição imediata, não havendo, assim, recomendação para evacuar o espaço, e sim o reforço da necessidade urgente de realização de intervenções corretivas dos riscos observados”, destaca o documento. 

“O relatório detalhado foi encaminhado para a administração do condomínio, que informou anteriormente a contratação de uma empresa para realizar as obras necessárias. A DCFor realiza o monitoramento das ações de engenharia, zelando para que sejam tomadas todas as medidas necessárias para garantir a segurança dos moradores”, segue a nota.

O que foi detectado para a interdição?

Segundo o engenheiro Pablo Torres, os estudos de solo, de recalque e de envelhecimento da estrutura, feitos após a inspeção predial deste ano no Jardim Monte Castelo, demonstram que o condomínio está “em processo de colapso” e que “começou a afundar, a inclinar para cair”.

Os principais pontos apontados pelo estudo, segundo o engenheiro, são:

  • As portas dos halls de entrada dos blocos não fecham mais;
  • As janelas de alumínio também não estão mais vedando;
  • Alguns pontos da calçada do condomínio têm rachaduras profundas;
  • Todos os blocos apresentam rachaduras;
  • Alguns apartamentos estão com o piso afundado.

Durante a análise, também foi atestado que o prédio foi construído em um solo alagadiço e aterrado de maneira inadequada. Além disso, a demora na busca por soluções efetivas também contribuiu para a situação atual.

O empreendimento fica próximo à Lagoa do Alagadiço, e o lençol freático estaria apenas a 80 centímetros do piso do prédio, segundo Torres. Por isso, uma das propostas de intervenção nas obras emergenciais será a injeção de concreto, para dar mais resistência ao piso dos blocos.

Ocorrências por risco de desabamento em Fortaleza

Riscos estruturais em condomínios configuram um problema recorrente na capital cearense. Um dos casos mais lembrados é a queda do Edifício Andrea, que desabou em outubro de 2019, no bairro Dionísio Torres. 

Nove pessoas morreram e sete sobreviventes foram resgatados ao longo de cinco dias de buscas. Meses antes, naquele mesmo ano, em junho, as colunas de sustentação de um edifício residencial no bairro Maraponga romperam e o prédio desabou parcialmente. Nenhuma pessoa morreu ou ficou ferida. 

As ocorrências aumentaram a pressão por fiscalização e aplicação efetiva de regras existentes em relação à vistoria predial, além de ampliar o número de denúncias pelos próprios moradores. 

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