A história contada em “Sontag – Vida e Obra” se passa ao longo de, mais ou menos, um século. Seguindo a tradição biográfica, inicia-se anos antes da aparição de sua protagonista – a escritora norte-americana Susan Sontag, nascida em 1933 – e se encerra há 15 anos, quando a terceira incidência do câncer a matou.
Do ponto de vista histórico, não se trata de uma vida distante no tempo – boa parte das instituições com que a biografada interage ainda estão aí. Contudo, o mundo que Susan Sontag representa parece uma realidade alternativa, e a melancolia de reconstituir seus passos sobre ele se explica pelo choque com a atual realidade.
Benjamin Moser, escritor norte-americano que biografou a brasileira Clarice Lispector, escreve sobre a intelectual que flertou com a cultura das celebridades, não para se tornar uma vedete, mas se fazendo presente nos debates públicos e tornando-os magnéticos para o público.
Susan Sontag tinha tudo o que era necessário na cultura da imagem – a beleza física, realçada pelas câmeras, e o carisma que a tornava inconfundível –; e na arena intelectual, com ideias claras, contraintuitivas e ousadas.
Susan Sontag se fez ouvir, altissonante, e conquistou, num mundo majoritariamente masculino, a posição de autoridade sobre quase tudo. Foi ela mesmo quem disse que sua ideia de escritor era a de “alguém interessado em tudo”. E ela foi assim desde cedo.
Criança solitária, às voltas com problemas familiares (uma mãe que rejeitava esse papel; e um pai morto demasiado jovem), formou-se uma leitora voraz e onívora. Seus diários registraram a maturidade das ideias de uma menina de 15, ilustrada e ambiciosa, que já tinha por certo uma vida intelectual vigorosa.
As pretensões de Susan Sontag eram de ter uma carreira literária, como ficcionista. De fato, ela o teve. Publicou romances e contos, mas não conseguiu ir além de uma posição secundária nas letras americanas (que Benjamin tenta rever, revalorando a Sontag ficcionista). Contudo, foi no ensaio que ela se encontrou e deu suas principais contribuições.
Neste gênero, que combina crítica, reflexão, criatividade, curiosidade e risco, publicou obras hoje consideradas referenciais, como “Contra a interpretação” (1966) e “Sobre fotografia” (1977). Foi esta Susan Sontag, do pensamento afiado e desafiante, que se fez uma espécie de voz da consciência de uma nação, em tempos que dava ouvidos a quem tem ideias.
Cobranças e polêmicas
A importância de Susan Sontag para a cultura dos EUA, em especial, e para o Ocidente, em geral, como modelo de intelectual ativa no debate público, tornou sua recente biografia um acontecimento literário.
Em seu novo livro, Benjamin Moser consolida o estilo biográfico que construiu para si, em “Clarice, Uma biografia”. O retrato que entrega da escritora norte-americana é ensaístico, carregado de ideias e de interpretações, por vezes ousadas e prontas para tornarem-se objetos de polêmicas.
A parte inflamável da biografia tem atraído mais atenção do que merecido, como nas críticas feitas a falta de engajamento aberto de Susan Sontag na causa LGBTQ+ (a autora era homossexual e viveu por anos com companheiras). Incorre-se no erro – mais de leituras, do que da escrita do biógrafo – de se exigir uma espécie de santidade da escritora, como se uma obra genial exigisse uma vida igualmente extraordinária.
Sontag - Vida e Obra
Benjamin Moser
Tradução: José Geraldo Couto
Companhia das Letras
2019, 704 páginas
R$ 109,90/ R$ 65,90 (e-book)