Depois da adesão massiva e do sucesso incontestável das canetas emagrecedoras, as chamadas “canetas para músculos” são o novo alvo de testes de especialistas em saúde e bem-estar.
Nomeadas de apitegromab e bimagrumab, as substâncias estão em fases mais avançadas de estudos clínicos e prometem revolucionar a indústria farmacêutica em poucos anos.
Elas atuam para tentar inibir a ação da miostatina, uma proteína que regula o crescimento do músculo. Associadas a medicamentos emagrecedores, demonstraram resultado promissor para a preservação da massa magra e composição corporal mais equilibrada.
Os remédios são idealizados para combater patologias como a sarcopenia, condição caracterizada pela perda progressiva e generalizada da massa muscular. De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, a doença afeta até 50% das pessoas acima de 80 anos e pode iniciar aos 30 anos.
Mas, afinal, como as canetas para músculos funcionam? O que dizem as evidências científicas mais recentes? Como os especialistas avaliam a nova tendência?
O Diário do Nordeste reuniu as perguntas mais frequentes (FAQ) dos leitores sobre o assunto e conversou com Arnaldo Paiva Neto*, médico geriatra especialista em Física, Geriatria e Gerontologia para esclarecer dúvidas dos possíveis novos medicamentos. Acompanhe a entrevista a seguir:
O que são as "canetas para músculos"? As "canetas para músculos" são medicamentos que estão em fase de pesquisa para atuar no desenvolvimento e preservação dos músculos.
Alguns são compostos por substâncias que também são estudadas em associação com as canetas emagrecedoras, para comparação da perda de músculo durante o emagrecimento, explica o geriatra Amaldo Paiva Neto. Como elas funcionam? Quais são as evidências cientificas? As substâncias que estão em fases mais avançadas de estudos clínicos são nomeadas como apitegromab e bimagrumab. Ambas tentam inibir a ação da miostatina, uma proteína que regula o crescimento do músculo.
Em alguns dos estudos, elas estão sendo associadas a medicamentos emagrecedores para a preservação da massa muscular. Segundo publicação da revista científica Nature Medicine, o apitegromab associado à tirzepatida, conhecida como Mounjaro, reduziu a perda de massa magra em comparação com o Mounjaro usado sozinho.
Outro artigo da Nature Medicine aponta que o bimagrumab associado à semaglutida, a exemplo do Ozempic e Wegovy, melhorou a composição da perda de peso, com maior perda de gordura e melhor preservação da massa magra.
Respectivamente, a apitegromab impede a ativação da miostatina e a bimagrumab bloqueia receptores da activina do tipo II, que trabalha junto com a miostatina.
O especialista alerta, no entanto, que ainda são necessários mais estudos para comprovar as evidências em relação à força muscular. Quantos desses medicamentos estão em desenvolvimento? Já há algum disponível no Brasil? Existem dezenas de medicamentos em diferentes estágios de desenvolvimento. Até o momento, nenhum foi aprovado, no Brasil ou em outros países.
Os mais avançados em testes com voluntários são apitegromab (Scholar Rock) e bimagrumab (Eli Lilly). Se liberados nos Estados Unidos, a expectativa é de que os medicamentos cheguem ao Brasil em 2028 ou 2029. Canetas emagrecedoras fazem perder músculo? Qual a relação entre déficit calórico e massa muscular? Parte do músculo pode ser perdida durante um processo de emagrecimento com canetas emagrecedoras ou em um processo de emagrecimento acentuado. Quando alguém emagrece, pode ter perda de massa magra, que inclui músculo, água, órgãos e outros tecidos, especialmente quando a pessoa é mais velha.
Muitas vezes os idosos já começam com uma reserva muscular menor. Um dos fatores que propiciam a perda de músculos durante o uso desses medicamentos é a falta de acompanhamento médico, ressalta Amaldo Paiva Neto. Elas auxiliam quem emagreceu e "derreteu" com as canetas emagrecedoras? Ainda não é possível dizer que as "canetas para músculos" são a solução para esse problema. As principais pesquisas até agora verificaram principalmente o uso no emagrecimento, como estratégia para evitar a perda de um grande volume de massa magra.
“Não tem como afirmar se, quem já perdeu, poderá recuperar apenas com o tratamento. Se uma pessoa emagreceu e teve muita perda muscular, tem que avaliar como está a alimentação, a ingestão de proteínas, a atividade fisica e as doenças associadas.
Exercício de força e suporte nutricional continuam sendo a base para preservar e recuperar a função muscular”, afirma o médico. Para quem as canetas para músculos são indicadas? Esses medicamentos seguem na fase de estudos clínicos e ainda não têm indicação aprovada. Eles estão sendo estudados para doenças neuromusculares e preservação de massa magra, assim como a sarcopenia.
“Dentro da geriatria, também é preciso avaliar se os medicamentos irão auxiliar a força e a função muscular para as atividades do dia a dia. É uma linha promissora, mas é necessário comprovar benefício funcional e segurança a longo prazo com os estudos”, pondera o médico. Quais os efeitos colaterais? Eles variam de acordo com o medicamento. Nos estudos do bimagrumab, foram relatados diarreia, acne e espasmos musculares pelos pacientes. Como essas drogas ainda estão em análise, não há conhecimento dos colaterais de longo prazo.
“Esses parâmetros são importantes especialmente para idosos, que muitas vezes usam vários medicamentos e convivem com diferentes diagnósticos ao mesmo tempo”, alerta o geriatra. Como ganhar massa muscular de forma segura e natural? O médico enfatiza que a forma mais segura e natural de ganhar massa muscular continua sendo a musculação, exercício resistido ou treinamento de força, feito de maneira progressiva e adaptado à capacidade de cada pessoa.
“Para a ganhar e manter a massa muscular, também é preciso uma boa alimentação, com proteínas em quantidades adequadas e, se necessário, o suporte de suplementos. O cuidado com a preservação muscular deve ser iniciado muito antes da velhice, mas nunca é tarde para começar. O que fazemos aos 40 ou 50 anos ajuda a construir a reserva para os 70”, destaca Amaldo Paiva Neto. Qual a diferença entre canetas, anabolizantes e suplementos? Segundo o especialista, os novos medicamentos para preservação muscular são anticorpos monoclonais, ou seja, proteínas produzidas em laboratório para reconhecer e se ligar a um alvo específico. Nestes casos que estão mais avançados, à miostatina e à activina.
Já os esteroides anabolizantes agem de forma semelhante à testosterona para o crescimento dos músculos.
Os suplementos são outra categoria que agem no tecido muscular. A creatina, por exemplo, é feita por diferentes aminoácidos, que formam as proteínas dos músculos. Ela pode ser útil para fortalecimento e recuperação, principalmente quando associada aos exercícios.
“Mas nenhum substitui o estímulo mecânico do exercício físico ou da musculação, que continua sendo essencial para manter o músculo funcional”, esclarece Amaldo Paiva Neto. Quais são os riscos de usar canetas sem orientação? As canetas para músculos não devem ser utilizadas fora de estudos clínicos e, quando forem disponibilizadas, não devem ser utilizadas por conta própria. Quanto às canetas emagrecedoras já aprovadas, a indicação e o acompanhamento devem ser feitos por médicos, com garantia da dose e da procedência do medicamento.
“Elas podem diminuir a massa gorda, mas também levar à perda progressiva e generalizada de músculos. Tem que considerar força muscular, alimentação, fragilidade, função renal, doenças associadas e outros medicamentos em uso associado. O cuidado é multidisciplinar, envolvendo profissionais como nutricionista, endocrinologista, fisioterapeuta e educador físico”, recomenda o especialista. Quando procurar ajuda médica? Uma das indicações para procurar ajuda médica é quando houver perda de peso ou de músculo sem intenção, assim como redução de força em movimentos comuns na rotina. "No caso de idosos, é importante observar dificuldade para levantar da cadeira, subir escadas, caminhar, carregar objetos ou quando começam a ocorrer quedas. O paciente precisa ser avaliado antes e durante os tratamentos, para que ele consiga envelhecer bem e preservar a autonomia”, conclui o médico.
*Arnaldo Paiva Neto é médico geriatra formado pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Pós-graduado em Física e em Geriatria e Gerontologia, desenvolve projetos e pesquisas interdisciplinares voltados à relação entre medicina, envelhecimento e pensamento filosófico contemporâneo. Autor do livro “Palimpsesto: O corpo que se reescreve”, resultado de um trabalho que integra evidências científicas e reflexão teórica.