Sem bets, mais comida na mesa? O que os números realmente mostram

Escrito por
Ana Alves animaconsultoria@yahoo.com.br
(Atualizado às 11:39)
Legenda: Medida provisória proibiu mercado de apostas esportivas e cassinos online no Brasil.
Foto: Shutterstock/Saulo Ferreira Angelo.

Uma notícia chama a atenção: o consumo de alimentos cresceu no Brasil após a proibição das bets. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), divulgado em 28 de outubro, o varejo alimentar avançou 6,5% entre 5 e 11 de outubro de 2026 e 6,3% na semana seguinte, sempre em relação aos mesmos períodos de 2025.

No Nordeste, as altas foram de 6,5% e 4,5%. A entidade observa maior procura por itens básicos, como arroz, óleo, macarrão e café.

A mudança ocorreu depois da Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro, que proibiu a oferta de apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos on-line.

As plataformas deveriam sair do ar a partir de 6 de outubro. A MP está em vigor, mas ainda depende de apreciação do Congresso Nacional.

A hipótese da Abras é economicamente plausível: se uma família deixa de transferir dinheiro para apostas, pode recuperar espaço no orçamento para alimentação, contas e dívidas.

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O efeito tende a ser particularmente importante entre os mais pobres, para quem um pequeno valor representa parcela relevante da renda disponível. Supermercados, produtores, distribuidores e pequenos comércios também podem se beneficiar desse redirecionamento do consumo.

Há sinais anteriores de pressão sobre o orçamento doméstico. Em pesquisa divulgada em março de 2026, a NielsenIQ identificou que 10% dos lares que apostavam declararam substituir outras despesas para acomodar os jogos.

Dentro desse grupo, 47% citaram alimentos e 45,3%, contas fixas. A pesquisa abrangeu diferentes modalidades de apostas, não apenas as bets agora proibidas; por isso, seus resultados não podem ser atribuídos exclusivamente a essas plataformas.

Um exercício do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da FEA-USP, estimou que, em 2025, as bets podem ter reduzido a atividade de outros setores entre R$ 117 bilhões e R$ 141 bilhões, conforme o cenário.

Trata-se de uma simulação baseada em hipóteses sobre gastos e circulação de renda, e não de dinheiro comprovadamente recuperado com a proibição. O mecanismo é relevante: quando se compra comida, movimentam-se comércio, transporte, produção e empregos.

Mas há uma cautela decisiva. Crescimento depois de uma medida não significa, por si só, crescimento causado por ela. A própria Abras informa que o consumo real acumulado de janeiro a setembro já subia 2,70%. Emprego, renda, preços e calendário de compras também influenciam as vendas.

E a queda de 10% no número geral de transações Pix após a MP, divulgada com dados do Banco Central, não permite identificar quanto deixou de ser apostado nem quanto foi para a mesa das famílias.

A proibição também tem custos e riscos. Segundo a Receita Federal, a atividade de exploração de jogos de azar e apostas recolheu cerca de R$ 9,95 bilhões em tributos federais em 2025 — categoria mais ampla que as bets. Empresas, fornecedores e clubes de futebol podem perder empregos, contratos e patrocínios.

Outra preocupação é a migração para sites clandestinos, onde a fiscalização e a proteção ao consumidor se tornam mais difíceis. São efeitos que precisam ser medidos, não presumidos.

O resultado mais desejável não é apenas gastar menos com apostas: é transformar essa folga em segurança financeira. Para quem costumava apostar, vale um desafio simples: anotar quanto gastava por mês e destinar esse valor, durante os próximos 30 dias, à alimentação, à quitação de contas atrasadas ou à formação de uma reserva. Se parte do dinheiro voltar à vida real, os benefícios poderão aparecer primeiro no prato — e depois na economia.

Pensem nisso! Até a próxima.

Ana Alves
@anaalves.economist

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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