Quando a morte chegar, que nos encontre reconciliados
No Dia de Finados, uma reflexão sobre a travessia entre o último sopro e o eterno.
Há temas que evitamos pronunciar, como se o silêncio pudesse afastá-los de nós. A morte é um deles. No entanto, ela caminha conosco desde o primeiro sopro. Não como ameaça permanente, mas como horizonte inevitável que dá medida, urgência e sentido à vida. Talvez por isso seja necessário pensá-la não apenas como fim, mas como passagem; não apenas como perda, mas como entrega; não apenas como ruptura, mas como retorno.
Quando chegar a hora de partir, não quero lutar para ficar. Quero desejar ir. Sair deste corpo e desse mundo onde ocupei um lugar, exerci funções, alimentei sonhos, realizei projetos e também deixei tarefas incompletas. Quero saber, com serenidade, que chegou a hora de partir, de virar a página porque cheguei ao fim do livro.
Não desejo uma partida marcada pelo desespero de quem se agarra ao que já cumpriu seu tempo, mas pela lucidez de quem reconhece que toda existência tem sua estação, seu amadurecimento e sua despedida.
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Essa serenidade, porém, não nasce da indiferença. Ela exige reconciliação. Não quero partir lamentando indefinidamente os erros que cometi, nem carregar remorsos pelas pessoas que feri sem querer. A elas, renovo o pedido de perdão que fiz ou que talvez não tenha sabido fazer no tempo certo.
Viver é também tropeçar, interpretar mal, falar demais, calar quando seria preciso dizer, ausentar-se quando alguém precisava de presença. Mas viver é, sobretudo, aprender a reconhecer a própria fragilidade sem transformá-la em condenação.
Tudo o que fiz, mesmo quando errei, nasceu do desejo de acertar, de viver em paz e de compreender o mundo ao meu redor. Essa constatação não apaga feridas, mas impede que a culpa seja a última palavra. Quando a morte me encontrar, desejo que me encontre em processo de reconciliação: comigo mesmo, com os outros, com Deus, com a terra que me sustentou.
Não há vida humana sem contradição. A grandeza talvez esteja menos em não errar e mais em permanecer capaz de pedir perdão, agradecer e seguir aprendendo.
Quero, nesse momento, olhar para o silêncio infinito que se aproxima e para a nova luz que desponta no firmamento. Esse mesmo silêncio, essa mesma luz, antecederam meu primeiro choro, quando abri os olhos e descobri rostos — sobretudo os de minha mãe e de meu pai.
Antes de sermos nome, profissão, história e memória, fomos espanto diante do mundo. Chegamos sem discurso, acolhidos por braços que já existiam antes de nossa consciência. Partiremos, talvez, também sem palavras, entregues a um mistério maior do que nossas explicações sobre nossa chegada ao mundo.
Ao nascer, abri os olhos; ao partir, fecho-os para descobrir outras nuances, outras matizes que ainda não pude registrar. A morte, vista assim, deixa de ser apenas apagamento. Ela se aproxima como outra forma de olhar. Durante a vida, enxergamos por meio dos sentidos, dos vínculos, das palavras, das paisagens, das dores e das alegrias.
No fim, talvez seja preciso fechar os olhos para perceber o que a visão comum não alcança: a continuidade invisível da existência, a comunhão com os que vieram antes, a presença do eterno no coração do transitório.
Não quero justificar meus erros. Quero apenas conservar a vontade profunda de conhecer o que ainda me espera. Essa disposição é uma forma de fé. Não necessariamente a fé feita de respostas prontas, mas a fé que se abre ao desconhecido sem perder a confiança.
Fui educado a imaginar um paraíso estático, muitas vezes apresentado como recompensa distante, quase imóvel. Hoje, porém, não espero um prêmio congelado no alto dos céus. Espero continuar sendo parte ativa e consciente da força que dinamiza o universo e da qual dei minha contribuição através dos projetos que realizei.
Ao Deus que me deu a vida por meio de meus pais, quero retornar para ser, com Ele, construtor de novas vidas. Essa imagem não diminui a dor da despedida, mas a redimensiona. Somos feitos de relações: dos gestos recebidos, das palavras herdadas, das lutas que nos precederam.
Muitas batalhas que travamos não começaram conosco. Vieram de nossos antepassados, de silêncios impostos, de injustiças antigas, de esperanças que atravessaram gerações. Por isso, não quero partir com a missão de continuar uma guerra, mas com o desejo de transformar herança em luz. Quero apenas SER.
Quero apenas ser a luz que não pude ser, a palavra que foi calada, o silêncio que nunca foi escolha minha. Há em cada pessoa uma história que ultrapassa sua biografia individual. Somos continuidade de dores e de bênçãos. Carregamos no corpo memórias que nem sempre sabemos nomear.
Às vezes, passamos a vida tentando curar feridas que não abrimos, responder perguntas que não formulamos, reparar ausências que herdamos. Quando penso na morte, penso também na possibilidade de devolver à vida aquilo que ela me confiou: amor, memória, perdão e gratidão.
Não quero, portanto, uma despedida ruidosa. Quando chegar a hora de partir, quero ir em paz e em silêncio: sem resistência, sem culpa, apenas entregue à luz e ao silêncio que me esperam. Que meu corpo volte à terra sem vaidade. Que minhas cinzas se juntem a outras e se espalhem para alimentar o planeta que me alimentou ao longo da vida. Que eu possa retornar à terra de onde vim, deixando lembranças do que fui e abrindo espaço para o que continuará depois de mim.
Talvez essa seja a sabedoria maior diante da morte: compreender que nada nos pertence plenamente, nem mesmo a vida que chamamos de nossa. Recebemo-la como dom, atravessamo-la como tarefa e a devolvemos como oferenda.
Se houver algo a pedir, peço apenas isso: que a morte, quando chegar, não me encontre fechado pelo medo, mas aberto pela confiança; não preso ao passado, mas reconciliado com ele; não ansioso por explicações, mas disponível ao mistério. Porque morrer, afinal, pode ser também a última forma de aprender a viver.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.