Investir na saúde mental dos trabalhadores dá retorno financeiro às empresas. Estudos apontam nessa direção há pelo menos uma década, sobretudo porque o cuidado aumenta a participação no mercado de trabalho e a produtividade.
Cada dólar aplicado no tratamento da depressão e da ansiedade gera um retorno médio de quatro dólares, segundo estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Banco Mundial de 2016.
Resultado semelhante foi encontrado em análise publicada em 2024 pela empresa britânica de auditoria e consultoria Deloitte, que revisou estudos sobre intervenções no ambiente de trabalho e estimou retorno médio de 4,70 libras esterlinas para cada libra investida, também em razão do ganho de produtividade.
Diante desses números, especialistas apontam que cada vez mais empresas têm investido na promoção da saúde mental dos funcionários. Além dos ganhos para o bem-estar dos trabalhadores, a estratégia é vista como uma forma de reduzir afastamentos, melhorar a produtividade e diminuir a rotatividade das equipes.
Esta é a segunda reportagem da série especial "O valor da saúde mental", do Diário do Nordeste. A primeira mostrou como os afastamentos do trabalho relacionados à saúde mental cresceram no Estado e os impactos financeiros desse avanço para a economia, a Previdência Social, as empresas e os próprios trabalhadores.
Mas, afinal, por que investir na saúde mental dos trabalhadores traz retorno financeiro para as empresas? A resposta passa, antes de tudo, por compreender a relação entre trabalho e adoecimento.
O trabalho é o vilão da saúde mental?
O crescimento dos afastamentos laborais relacionados à saúde mental no Ceará não pode ser associado a um único fator. De acordo com a psicóloga Adrielly Sousa, os números resultam de dois movimentos: o aumento do número de pessoas adoecidas e o da busca por tratamento.
Na visão da especialista, o crescimento do sofrimento psíquico e emocional decorrente dos hábitos e do modo de vida contemporâneo é inegável.
Segundo ela, tanto ambientes que desumanizam a pessoa quanto hábitos de isolamento se tornaram mais comuns, o que favorece o aumento de crises existenciais e o esgotamento físico e mental.
Além disso, Adrielly destaca que cresceu o número de pessoas que se abrem para reconhecer as próprias vulnerabilidades, superar tabus e buscar tratamento adequado.
Por outro lado, ela também reforça que o trabalho desempenha papel crucial na relação entre saúde e doença, já que a dinâmica contemporânea capitalista exige que os indivíduos passem boa parte do tempo nesse ambiente.
"Se uma empresa funciona baseada em metas desumanas, competitividade extrema, vigilância constante, cobranças excessivas e não proporciona um ambiente minimamente saudável e seguro para o trabalhador, este deixa de ser visto como uma pessoa (com sentimentos, limites, necessidades e valores) e passa a ser tratado apenas como um recurso ou objeto"
O resultado comum desses fatores, de acordo com a especialista, é o esgotamento físico e mental do trabalhador, que culmina em adoecimentos como a síndrome de burnout e transtornos de ansiedade e depressão.
Dados do Ministério da Previdência Social (MPS) mostram que os transtornos ansiosos foram a principal causa de concessão de benefícios por incapacidade temporária relacionados à saúde mental no Ceará em 2025, com 4.488 auxílios.
Em seguida aparecem os episódios depressivos (2.857) e o transtorno depressivo recorrente (1.692).
Esse cenário também aparece em análises internacionais. Em relatório publicado neste ano, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estimou que a ansiedade generalizada responde por 56% das perdas de produtividade associadas aos transtornos mentais nos países da União Europeia.
A depressão representa outros 39%, enquanto os transtornos relacionados ao uso de álcool respondem por 5%.
NR-1 e alta de afastamentos
Desde maio deste ano, a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que obriga as empresas a promover ambientes de trabalho saudáveis e a gerenciar riscos ocupacionais, passou a exigir a inclusão dos riscos psicossociais nos planos de prevenção dos negócios. Na prática, a medida reconhece que fatores como excesso de cobrança, assédio e jornadas exaustivas também podem comprometer a saúde dos trabalhadores.
"Os números apontam o que já ouvíamos nos consultórios, com muitos trabalhadores relatando uma exposição persistente de, por exemplo, sobrecarga de trabalho, entraves organizacionais, pouco apoio institucional e baixa autonomia. Tudo isso acaba intensificando sua vulnerabilidade para desenvolver ou mesmo agravar transtornos mentais e quadros relacionados ao estresse no geral"
Para o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), dr. Antônio Geraldo da Silva, tanto a atualização na norma quanto o crescimento do número de afastamentos do trabalho por motivo de saúde mental no Ceará demonstram a relevância dos transtornos mentais no mercado de trabalho. Mesmo ressaltando que o adoecimento é influenciado por inúmeros fatores, o especialista revela que os dados acompanham a realidade dos atendimentos.
Outro aspecto que evidencia a relação entre trabalho e saúde mental é o aumento no número de processos envolvendo questões de saúde mental na Justiça do Trabalho em todo o País.
"Se ele está sujeito a uma jornada extenuante, a uma cobrança de meta exagerada, tudo isso pode agravar a doença. O que é mais comum é que no mínimo haja essa concausalidade. O ambiente de trabalho contribui diretamente para o agravamento desse tipo de patologia, seja pela jornada, seja pela cobrança de produtividade. Cada vez mais você só vale aquilo que produz"
A informação é do presidente da Comissão de Direito do Trabalho da OAB-CE, Raul Aguiar. Segundo ele, o mais comum é que indivíduos com predisposição para esse tipo de enfermidade, ou que enfrentem outros fatores extralaborais causadores dos distúrbios, tenham o quadro de adoecimento mental agravado pelo trabalho.
Apesar da atualização da NR-1, a aplicação de multas e outras sanções relacionadas especificamente às exigências sobre riscos psicossociais no ambiente de trabalho está suspensa pelo Supremo Tribunal Federal (STF) desde junho.
Segundo a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego no Ceará (SRTE-CE), o objetivo é construir critérios mais objetivos por meio de conciliação entre representantes do governo, empregadores e trabalhadores.
O Diário do Nordeste solicitou à SRTE-CE informações sobre autuações e multas relacionadas aos riscos psicossociais no Estado, mas o órgão afirmou não ter dados oficiais consolidados. Também foi solicitado ao Tribunal Regional do Trabalho da 7ª Região (TRT-7) o número de processos envolvendo questões de saúde mental no Ceará, mas o tribunal informou que não dispõe desse levantamento.
Gastar com saúde mental é inevitável, mas prevenir o adoecimento é mais barato
"Trata-se de um gasto que já ocorre, ou seja, a escolha é entre pagá-lo na forma de afastamento ou antecipá-lo, em menor monta, na forma de prevenção. O custo de não fazer nada, no caso cearense, é a soma dos milhões anuais em auxílios, da produção perdida de magnitude semelhante ou maior, e de uma judicialização crescente, com a tendência de que esses valores subam ano após ano"
Os resultados apresentados pela OMS e pela Deloitte reforçam uma avaliação do economista Thiago Holanda: para as empresas, gastar com saúde mental se tornou inevitável, seja na forma dos gastos gerados pelos afastamentos, seja pelo investimento em prevenção ao adoecimento. A diferença, no entanto, pode estar nos valores despendidos.
A mesma lógica é defendida pela psicóloga e CEO de empresa de saúde mental corporativa, Mirna Moura.
"Na área da saúde, existe uma premissa importante: prevenir costuma ser menos oneroso do que lidar com o adoecimento já instalado. Na saúde mental, essa lógica também se aplica", destaca.
Segundo ela, o investimento em prevenção ao adoecimento mental gera retorno financeiro ao contribuir para reduzir afastamentos, rotatividade e presenteísmo. Também favorece o engajamento, a produtividade, a qualidade das relações, a retenção de talentos e a continuidade das operações.
"Nem todo sofrimento emocional tem origem exclusivamente no trabalho, mas a maneira como o trabalho é organizado pode agravar ou amenizar esse sofrimento. O trabalho também pode ser um importante fator de proteção, pertencimento, autonomia e desenvolvimento"
Além disso, ressalta, uma empresa que cuida das pessoas fortalece sua reputação como empregadora e se torna mais atrativa para profissionais qualificados.
Outro benefício é citado pelo especialista em medicina do trabalho, pesquisador do Centro de Inovação do Serviço Social da Indústria (Sesi) Ceará e pós-graduado em psiquiatria, Cláudio Patrício: o posicionamento da empresa como marca que se importa com a saúde mental dos trabalhadores pode se tornar um diferencial no mercado consumidor.
"Principalmente ao mercado consumidor moderno e do futuro, mais preocupado com questões sociais relacionadas às marcas que consome. Cuidar da saúde mental é uma decisão de proteção do capital humano. Empresas mentalmente mais saudáveis tendem a ter pessoas mais presentes, produtivas, engajadas e capazes de permanecer trabalhando com qualidade", pondera.
A ideia é complementada por Antônio Geraldo da Silva. Na perspectiva do presidente da ABP, investir na saúde mental dos funcionários não é uma despesa para as empresas, mas sim uma medida estratégica para preservar o funcionamento das equipes, das instituições e da saúde do indivíduo.
"Promover o diagnóstico precoce, garantir acesso ao tratamento necessário e combater quaisquer estigmas que atrasem isso, são, na verdade, estratégias essenciais. Não é por acaso que órgãos internacionais como a OMS já recomendam intervenções organizacionais que se dediquem à redução dos riscos psicossociais, ao treinamento de gestores e à criação de ambientes de trabalho mais saudáveis e acolhedores", salienta.
Empresas ampliam investimentos em saúde mental
Os benefícios não têm passado despercebidos pelas empresas. De acordo com Mirna, há um crescimento significativo na procura por serviços voltados à saúde mental e ao bem-estar no trabalho.
Para a executiva, as empresas começam a compreender que a saúde mental não deve ser tratada apenas quando surge uma crise, mas integrar a estratégia e a rotina da organização.
"A nossa própria trajetória demonstra esse movimento. Iniciamos nossas atividades com duas psicólogas e, atualmente, contamos com uma estrutura ampliada, com atuação também em outros estados e forte adesão aos serviços na modalidade on-line. Hoje, somos dois sócios, uma coordenadora de projetos, uma estagiária e 15 consultoras e plantonistas", destaca.
O crescimento na procura de empresas por esses serviços também é apontado por Cláudio Patrício. Segundo ele, o movimento é impulsionado principalmente pela atualização da NR-1, em maio deste ano.
Conforme aponta, instituições financeiras, hospitais e grandes redes varejistas vêm ampliando a busca por programas de prevenção e cuidado.
Apesar disso, o especialista ressalta que o cenário local e nacional ainda engatinha na promoção de saúde mental nas empresas. "Hoje vemos muitas ações pontuais e sem dados metodologicamente consistentes de apresentação de resultados aqui no Brasil", lamenta.
É preciso alinhar o discurso à prática
O retorno financeiro para as empresas que investem em cuidados de saúde mental existe, mas não é qualquer iniciativa pontual que vai trazer esses resultados. Cláudio Patrício alerta que os benefícios dependem de um investimento estruturado, contínuo e baseado em evidências.
"Prevenção eficaz não é realizar uma palestra no Setembro Amarelo ou no Janeiro Branco, distribuir materiais ou oferecer um aplicativo isoladamente. A política funciona quando a empresa escuta, identifica os riscos, modifica o trabalho, capacita as lideranças, oferece cuidado e mede os resultados. Saúde mental começa com cargas de trabalho possíveis, relações saudáveis, liderança preparada e segurança para que o trabalhador possa falar antes de adoecer"
Para o especialista, o ganho econômico é consequência de medidas como programas de promoção à saúde, prevenção de doenças crônicas, avaliação e controle dos riscos psicossociais, organização adequada do trabalho, capacitação das lideranças, combate ao assédio, canais seguros de acolhimento, identificação precoce dos casos, acesso ao tratamento e programas estruturados de retorno ao trabalho.
O retorno do funcionário à empresa após um afastamento também merece cuidado e não pode ser visto como algo simples e imediato, frisa a psicóloga Adrielly Sousa.
De acordo com ela, o processo é uma reabilitação gradual, com reintegração e ressignificação da relação do indivíduo com o ambiente de trabalho e com o desempenho das funções.
"Esse processo precisa ser encarado com seriedade e ter seu tempo respeitado. Cada ser humano tem seu tempo e ritmo no processo de melhora e recuperação. É necessário que o trabalhador seja acompanhado por uma equipe médica, faça psicoterapia e, em seu processo de retorno, é fundamental que seja acolhido de volta no próprio ambiente organizacional sem julgamentos", reforça.
Ainda que necessário, começar a investir em saúde mental não precisa ser dispendioso para a empresa. Mirna Moura lembra que reconhecer o valor de cada colaborador, oferecer devolutivas respeitosas e estimular relações baseadas na confiança são medidas que não exigem grandes investimentos financeiros e representam passos importantes.
"Uma pequena empresa pode começar pelo essencial: escutar seus colaboradores com respeito e sem intenção de punição ou retaliação. Também pode organizar melhor o trabalho, esclarecer prioridades, distribuir responsabilidades de maneira equilibrada e criar espaços seguros para que as pessoas comuniquem dificuldades antes que elas se transformem em crises", aconselha.
Os resultados aparecem, mas levam tempo
Por ser complexa a tarefa de construir um ambiente empresarial saudável, é importante lembrar que os resultados não são imediatos. Segundo Cláudio Patrício, o retorno financeiro tende a aumentar à medida que o programa de saúde mental amadurece na empresa.
Ele explica que o aumento do engajamento, a retenção de talentos e a diminuição da rotatividade nas equipes podem apresentar retornos positivos mais rápidos. Já fatores como o aumento da produtividade e a diminuição do absenteísmo tendem a demorar um pouco mais para mudar.
"Há estudos que identificaram melhora no desempenho no trabalho após quatro meses e redução de afastamentos após seis meses de intervenções direcionadas. Uma análise da Deloitte com empresas canadenses encontrou retorno mediano de 1,62 dólar canadense para cada dólar investido nos primeiros anos, chegando a 2,18 dólares nas organizações com programas implantados há três anos ou mais", cita.
Para Mirna Moura, quando o cuidado já faz parte da rotina organizacional e existe envolvimento da liderança, os resultados tendem a aparecer de maneira mais consistente. Nesses casos, ela aponta que as evoluções mais aparentes costumam ser observadas a partir de dois anos.
"Indicadores mais estruturais, como afastamentos, rotatividade e produtividade, exigem acompanhamento de médio e longo prazo. Em uma empresa que já possui uma cultura razoável de cuidado, dois anos podem ser uma referência plausível para observar resultados mais consistentes e progressivos. Isso depende, porém, de um trabalho contínuo, acompanhado por métricas e instrumentos adequados, envolvendo desde a alta gestão até as equipes operacionais", indica.
Cuidar da saúde mental, no entanto, é um trabalho constante, que deve ir além dos muros das empresas. "É sobre como hoje vivemos a vida, estabelecemos prioridades, construímos nossos hábitos e nossos vínculos. Nosso estilo de vida contemporâneo tem nos adoecido e alienado", alerta a psicóloga Adrielly Sousa.
Créditos
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