O Ceará ocupa a 11ª colocação no Brasil e a 3ª posição no Nordeste no indicador de Disponibilidade de Voos Diretos, segundo dados do Ranking de Competitividade do Centro de Liderança Pública (CLP).
Com 21.548 voos em 2025, o Estado registra cerca da metade do volume acumulado pela Bahia, líder regional com 42.174 voos, e por Pernambuco, segundo colocado com 40.151 voos.
Para o levantamento, o ranking considerou dados disponibilizados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), com ano-base 2025.
O Diário do Nordeste pediu posicionamento à Secretaria do Turismo do Ceará (Setur) sobre os resultados e se existe alguma meta ou plano de expansão da malha aérea cearense para os próximos anos, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.
O que significa esse resultado?
Na avaliação da gerente de Competitividade e Relações Institucionais do CLP, Carla Marinho, a posição demonstra que o Ceará tem relevância, mas precisa expandir sua oferta em relação aos principais polos do País.
"Estar em 11º lugar, para um estado com forte atividade turística e econômica, mostra que há espaço para ampliar essa conectividade e se aproximar dos principais centros nacionais", ressalta.
Sobre o fato de Fortaleza abrigar um hub de conexões da Latam, Carla Marinho pondera que essa estrutura é vantajosa, mas não garante sozinha o topo do indicador sem o aumento de frequências gerais.
Marinho acrescenta que, para melhorar no indicador, o Ceará precisa ampliar o número total de voos domésticos regulares, seja com novas rotas, aumento de frequências nas conexões existentes ou expansão das operações em outros aeroportos do estado.
Ela detalha que o indicador do CLP é elaborado a partir de dados da Anac com ano-base 2025 e ressalta que os impactos da conectividade vão além do setor aéreo.
Uma maior oferta de voos facilita a circulação de pessoas, reduz custos de deslocamento e melhora a integração do estado com outros mercados. Isso tem impacto sobre turismo, negócios, atração de investimentos e competitividade de forma mais ampla".
Apesar de o Ceará contar com quatro aeroportos em operação comercial regular, a representante do CLP esclarece que essa quantidade não entra diretamente no cálculo.
"O indicador não mede quantos aeroportos possuem operações comerciais, mas o volume de voos diretos domésticos regulares oferecidos. Um estado pode ter vários aeroportos com poucas frequências ou concentrar grande volume de operações em poucos terminais", explica.
Gargalos e transformações no setor
Segundo a professora doutora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Viviane Falcão, o resultado do ranking reflete o impacto das transformações recentes no setor.
"A colocação do Ceará no cenário nacional e o 3º lugar no Nordeste no indicador revelam um diagnóstico claro, o Estado mantém uma posição estrutural relevante, mas enfrenta desafios específicos de recomposição e expansão da sua malha aérea após as profundas transformações do setor nos últimos anos", avalia a especialista.
Segundo a especialista, o desempenho inferior do estado em relação aos vizinhos decorre de arranjos operacionais e geográficos diferentes. Ela explica que a Bahia se beneficia de uma rede aeroportuária distribuída em polos como Porto Seguro e Ilhéus.
Além disso, a maior proximidade geográfica com o Sudeste influencia porque reduz o custo de etapa de voo e atrai um volume expressivo de voos diretos emissores de turismo.
Já no caso de Pernambuco, o diferencial é a operação sob o modelo "hub-and-spoke" consolidado pela Azul Linhas Aéreas e pela concessão aeroportuária em bloco (Aena), no qual terminais do interior alimentam continuamente o aeroporto do Recife.
"Em contrapartida, o Ceará concentra a quase totalidade de sua movimentação no Aeroporto Internacional de Fortaleza", pondera, lembrando que o Estado possui área de influência sobre o Piauí, Maranhão e o norte do Rio Grande do Norte.
"A captação de passageiros desses estados e do interior cearense ocorre predominantemente por transporte rodoviário, pela ausência de uma malha aérea regional alimentadora (feeder) mais abrangente", reforça.
Retração de passageiros e limites da política fiscal
Dados da Anac sobre a projeção de passageiros entre 2019 e 2026 evidenciam a discrepância no ritmo de recuperação entre as capitais nordestinas.
Enquanto Salvador cresceu 17,59% e Recife avançou 14,61%, Fortaleza apresentou retração de 13,20%, figurando como o único entre os três maiores terminais da região a registrar saldo negativo no período.
Ainda conforme a análise de Viviane, a concessão de incentivos fiscais feitos pelo governo do Ceará, como a redução do ICMS sobre o combustível de aviação, e os investimentos da concessionária do terminal, a Fraport, não impediram o cancelamento de rotas.
"Desonerações fiscais não eliminam o risco comercial das companhias aéreas. Se a rentabilidade e a densidade de demanda não sustentam o voo a longo prazo, a operação é descontinuada", pondera.
Concentração fora da região e escassez de aeronaves
A forte dependência de conexões fora do Nordeste agrava a retenção de tráfego na Capital cearense.
A professora Viviane aponta que, nas viagens com conexão originadas na região, 62,73% são processadas no Sudeste e 15,60% no Centro-Oeste, ao passo que apenas 15,54% ocorrem em aeroportos do próprio Nordeste, gerando uma fuga de conexões que limita o transbordo em Fortaleza.
"O cenário é amplificado pela escassez internacional de aviões — sobretudo modelos de longo curso (widebody) — e pelos elevados custos operacionais do setor", pondera.
Conforme ressalta a análise técnica, essa limitação força as companhias aéreas a concentrar suas frotas em rotas de maior densidade no Sudeste, reduzindo a oferta de voos diretos em hubs secundários como o terminal cearense.