7 a cada 10 profissionais de saúde com Covid no Ceará são mulheres; especialistas apontam motivos

Dos quase 22 mil casos da doença entre médicos, enfermeiros e outras profissões, 15,9 mil atingiram pessoas do gênero feminino

Mais da metade dos casos confirmados de Covid-19 no Ceará são de pessoas do gênero feminino. Dos 688.026 infectados, 379.713 são mulheres (55%), segundo o IntegraSUS, da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa). Entre profissionais de saúde, elas também são maioria absoluta: somam cerca de 72% das infecções.

Do início da pandemia até esta segunda-feira (3), foram registrados 21.956 casos do novo coronavírus entre profissionais que atuam na área, no Ceará – 15.935 acometeram mulheres (72,5%) e 6.021 infectaram homens (27,5%), apontam dados da Sesa.

Fortaleza concentra 7.953 das infecções entre esse grupo, e a proporção de mulheres atingidas pelo vírus se repete: elas acumulam 5.871 desses casos (74%), contra 2.082 entre profissionais do gênero masculino (26%).

Os possíveis motivos para esse cenário são múltiplos e ainda exigem mais análises e estudos, segundo médicos e pesquisadores em infectologia, mas incluem tanto fatores biológicos como comportamentais.

A médica Melissa Medeiros, infectologista do Hospital São José (HSJ), aponta que os homens, apesar de “terem mais receptores do vírus e maior tendência a casos graves”, representam grande fatia dos casos subnotificados, que não chegam aos registros oficiais.

Já em se tratando dos profissionais de saúde, a justificativa pode ser simples: há mais mulheres desempenhando funções da “linha direta” com os pacientes, como enfermeiras, técnicas e auxiliares, por exemplo.

O setor da enfermagem, que cuida dos pacientes de modo mais direto, tem muito mais mulheres. Aqui na unidade de Covid, só tinha um enfermeiro homem, enquanto as auxiliares levavam o paciente ao banheiro, davam medicação, tinham contato muito mais próximo"
Melissa Medeiros
Infectologista do Hospital São José (HSJ)

Técnicos e auxiliares de enfermagem ocupam o topo da lista de infecções por Covid no Ceará, somando 6.019 casos confirmados. Os enfermeiros aparecem depois, com 3.370 registros. Em seguida, vêm agentes comunitários de saúde, com 1.899 confirmações, e médicos, com 1.720.

Linha de cuidado

O fator cultural também influencia no cenário. “A questão do cuidar está mais vinculada às mulheres, culturalmente. Sempre tivemos muito mais profissionais de enfermagem do sexo feminino, e temos visto isso nos profissionais de saúde em geral, até na faculdade de medicina”, observa Melissa.

A enfermeira Andrea de Oliveira, 35, atua na ala obstétrica de um hospital estadual de Fortaleza, e já testou positivo para a Covid duas vezes só em 2021. Em uma delas, ficou assintomática – mas a segunda foi mais grave, contraída um mês depois da primeira, após um único plantão na UTI Covid.

“Quatro dias depois do plantão, adoeci. Tive febre, dor de garganta, dor de cabeça, no corpo, nos olhos, perdi olfato e paladar. Foram cinco dias bem ruins, cheguei a ir pra emergência”, pontua a enfermeira, cuja exposição ao coronavírus é constante.

Algumas pacientes chegam sintomáticas. São casos menos graves, ficam em isolamento, mas tenho que entrar durante o parto, dar assistência. A gente fica muito exposta.
Andrea de Oliveira
Enfermeira

O infectologista Keny Colares, consultor em infectologia da Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP/CE), analisa que “todo estudo com profissionais de saúde tende a ter mais mulheres do que homens”, porque, de forma geral, elas predominam na área da saúde.

Ele reforça que não conhece “trabalhos que mostrem que mulheres se infectam mais do que homens”, e, além da predominância delas nos postos de trabalho, aposta na subnotificação como justificativa para serem mais numerosas entre os casos de Covid.

“As mulheres procuram mais o serviço de saúde. O homem pode ter a doença e não testar, não procurar ajuda. Esses números são mais sobre notificação ou distribuição das pessoas expostas, e não caráter biológico”, avalia.

Homens “morrem mais”

O indicador que mostra, no Integra SUS, o acúmulo de óbitos pela doença pandêmica entre os atores da saúde apresentou instabilidade, nesta segunda (3), de modo que o dado não pode ser divulgado com segurança. Até 10 de março deste ano, porém, 50 profissionais de saúde já haviam morrido pela virose.

Já nas estatísticas gerais sobre a incidência da Covid no Ceará, há mais mulheres infectadas, mas mais homens mortos pela doença. Melissa Medeiros relembra que “na primeira onda, a procura era igual, mas se internava muito mais homens e eles tinham maior tendência para evoluir a óbito”. 

A médica explica que “isso está relacionado aos receptores do vírus, que os homens têm em maior quantidade, e à questão hormonal, à influência da testosterona”. As comorbidades também influenciam, uma vez que “eles cuidam menos do controle de diabetes e hipertensão, por exemplo”.

Keny Colares frisa que “homens e mulheres têm quantidades diferentes de receptores que o vírus precisa encontrar pra se encaixar na célula – se eles têm mais ‘portas’, entra mais vírus e a doença agrava mais. Mas a gente ainda não entende 100%”, conclui o pesquisador.