Theatro José de Alencar deve passar por restauro com verba federal; relembre histórico de reformas

Iniciativa atualizará projeto de reforma já existente, o que configurará no maior restauro do equipamento cultural desde 1990. Gestoras e artistas contextualizam expectativas e necessidades

Centenário e imponente na cacofonia do Centro de Fortaleza, o Theatro José de Alencar está prestes a escrever mais um capítulo da própria história. O equipamento foi um dos 105 selecionados pelo novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em projetos de recuperação de patrimônios culturais materiais e imateriais com tombamento federal.

Isso significa atualização de um projeto de reforma já existente, o que configurará o maior restauro da casa desde 1990. O valor previsto para a feitura do plano é de R$ 328,5 mil. A iniciativa, contudo, prevê o custo de realização apenas da proposta de engenharia e arquitetura para recuperação do patrimônio – não cobrindo, portanto, a etapa de obras.

São várias as demandas: restauro de elementos artísticos integrados; cenotecnia; instalações elétricas e luminotécnicas arquiteturais; cabeamento estruturado; além da compatibilização entre esses novos projetos e projetos já existentes, licitados pela Superintendência de Obras Públicas (SOP) em processo anterior.

“Por se tratar de um prédio centenário e tombado em nível federal, a elaboração desses projetos deve ser feita por empresa especializada na área de restauro e aprovada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Apenas depois de prontos, será estudada a viabilização da reforma”, situa Natália Escóssia.

Gestora-executiva do TJA, ela afirma que “apesar do estado íntegro de preservação”, atualmente o teatro possui desafios estruturais, exigentes de um processo de restauro mais abrangente e minucioso. Isso contempla reparo de estruturas metálicas, de elementos artísticos, a exemplo de pinturas e vitrais, além da aquisição de equipamentos que modernizem o espaço para melhor acolhimento de artistas e público.

Segundo Natália, o que foi enviado ao Governo Federal para análise no edital do Novo PAC foi uma carta-consulta relatando a situação de preservação do bem tombado e a justificativa para aplicação do recurso na elaboração dos projetos para a viabilização da obra de restauro.

“Ou seja, a aprovação foi da proposta da carta-consulta. Com o valor repassado pelo Governo, serão viabilizados os projetos que faltam. A responsabilidade pela execução desses projetos ainda não foi definida”.

Quando foi o último restauro

A última vez em que o TJA passou por grande restauro foi em 1989. À época, o lugar estava em situação-limite de degradação, e recuperá-lo seria uma estratégia de tentar revitalizar o Centro de Fortaleza. Não à toa, a secretária da Cultura do Ceará naquele período, Violeta Arraes, buscou mão de obra especializada e reconhecida no Brasil. 

Uma empresa ficou à frente do restauro e procurou ouvir artistas e público para fazer com que a reforma se adequasse às qualidades originais do Theatro, mas também atender às exigências da arte teatral contemporânea. 

“Dessa forma, pode-se dizer que essa reforma foi a primeira a dedicar atenção aprimorada à caixa cênica e seus recursos. A área de plateia teve importância, mas a área técnica foi, pela primeira vez, contemplada de forma significativa”, explica Natália.

Entre os principais destaques da reforma de 1989-1991 estão a liberação da área das coxias, onde antes estavam localizados os camarins; agregação do anexo, equipando o Theatro com salas para áreas administrativas, de formação e ensaios; e consequente elevação do patamar do espaço, consolidando a estrutura para receber apresentações e ser centro de saberes.

Depois disso, apenas em 2005 o TJA passou por breve reforma, contemplando coberta, fachadas, saguão, foyer, pátio nobre, palco, plateia, frisas, camarotes, jardim, camarins, copa, porão, instalações hidráulicas, instalações de ar-condicionado e o Teatro Morro do Ouro.

Outros ajustes

Integrante da Coordenação de Política para as Artes da Secretaria da Cultura do Ceará, Selma Santiago foi gestora do Theatro entre 2015 e 2019. Ela afirma que, no período em que esteve na direção da casa, houve uma “grande obra” capaz de recuperar todos os espaços do Anexo Cena – onde estão o Teatro Morro do Ouro, as salas de aula e a parte administrativa.

“Foi uma requalificação com reforma estrutural, incluindo instalação de duas plataformas acessíveis – uma para o palco principal e outra para o Anexo –; elevador acessível; reforma do ar-condicionado e de toda parte de iluminação do prédio histórico, do Jardim e do Anexo Cena”, enumera.

Com isso, entre outros passos, a entrada do Anexo foi reaberta e foram reinauguradas a Biblioteca Carlos Câmara, a sala de exposições Galeria Ramos Cotoco, a sala de figurino, todas as salas de aula e a sala de música, além da inauguração do Café Iracema, na parte histórica do complexo. 

“Para este novo momento, seria importante o restauro de elementos como pinturas, afrescos e mobiliário; recuperar as cortinas, varas de luz e a condição técnica do teatro, como iluminação, sonorização e ciclorama; além de rever a madeira do palco”, opina.

“Temos um lugar que é central, acessível e promove a troca de conhecimento. Lá se aprende assistindo e construindo juntos, uma vez que as salas de aula também são cedidas para montagens. É o teatro-cabeça da Rede de Teatros do Sistema Estadual de Teatros e Espaços Cênicos do Ceará (SET/CE). O TJA é âncora e merece esse restauro”.

Conservar para enriquecer

Artistas de diferentes gerações endossam o coro e contextualizam mais necessidades para o lugar. Um dos principais focos é, de fato, a conservação do patrimônio. “Especialmente nos banheiros e nos elementos metálicos da construção original”, diz a atriz, professora e diretora de teatro Neidinha Castelo Branco.

Ela frequenta o equipamento desde que embarcou nas Artes Cênicas, há 45 anos. De lá para cá, assistiu e participou de espetáculos, fez produções pontuais, foi coordenadora de pauta e hoje é professora do Curso de Princípios Básicos de Teatro (CPBT). No semblante, o desejo de que o lar permaneça firme e resistente.

“O desgaste é um processo de uso resolvido pela manutenção. Houve uma intervenção no sentido de dotar acessibilidade ao espaço. Isso aconteceu em 2012, quando foi assinada a ordem de serviço que daria início às obras de acessibilidade do TJA”, contextualiza.

“Atualmente estão sendo feitas reformas nas salas do Centro de Artes Cênicas. Mas os espaços como um todo merecem ajustes e um olhar mais apurado dos nossos governantes. Afinal, estamos falando de uma referência artística e turística nacional – O Theatro-Monumento, o Theatro José de Alencar”.

Silvia Moura é outra que contribui com o debate. A artista – com atuação entre a dança, o teatro e a performance – conta já ter visto várias reformas acontecendo no TJA. A única com maior envergadura, porém, foi mesmo a já citada, ocorrida de 1989 a 1991. 

“Fora isso, o que houve não foi bem reforma nem restauro, mas manutenção. Inclusive, acho que é muito importante assegurar e garantir uma manutenção anual, frequente do Theatro”, defende. Por outro lado, enxerga como ainda mais urgente a resolução da parte técnica do equipamento, notadamente a estrutura de som e de luz.

“Nesses casos, não podemos falar nem de reforma, mas de reposição. E, claro, adquirir material novo de qualidade, porque, de fato, está muito ruim. Som, luz, esse tipo de equipamento para o palco principal, está tudo muito fragilizado”.

Conforme a Secretaria da Cultura do Ceará – pasta responsável pela gestão do TJA – o projeto de restauro, de forma mais detalhada, cobrirá as seguintes demandas:

  • Revisar os projetos existentes de instalações elétricas, instalações luminotécnicas e de cabeamento estruturado;
  • Elaborar projeto de modernização cenotécnica da área de urdimento, varas cênicas, proscênio, palco e porão, para atualização de equipamentos de áudio e vídeo e cenotecnia, vestimenta cênica, iluminação cênica e expositiva;
  • Elaborar projeto de restauro de elementos artísticos integrados, tais como lustres, vitrais e pinturas, em consonância com as determinações técnicas dos demais projetos;
  • Elaborar orçamento executivo global de restauro, para determinação de estratégias de captação de recursos para viabilização das obras;
  • Compatibilizar os projetos já existentes com os novos projetos a serem elaborados.

Olhar cuidadoso

Com carreira iniciada por meio da conclusão do curso Princípios Básicos de Teatro, em 1999, a partir da apresentação do espetáculo “O País do Lado da Felicidade”, Tatiana Amorim acredita que o projeto de restauro do TJA deve envolver sobretudo pessoas que habitam aquele espaço, vivem nele. É essencial, assim, um conhecimento profundo da casa.

“Não adianta fazer algo assim se você traz uma pessoa que não vive aquele lugar, que não sabe das peculiaridades, dos problemas, do que precisa, do que realmente é efetivo. Acho que deveria ser obrigatório somente estar envolvido nesse projeto pessoas que vivem ali – a sociedade, os artistas, os grupos e profissionais da parte técnica”.

Na visão dela, apesar da imponência e do contexto histórico no qual está inserido, o Theatro José de Alencar “ficou um pouco para trás” no que toca à inovação tecnológica. Desatualizado sobretudo na questão maquinária – realidade que, desde quando passou a frequentar o equipamento, há 25 anos, já era presente.

“Para além da política pública do nosso Estado – principalmente da nossa Cidade, que não preserva prédios históricos, não tem o compromisso de manter nossa memória – é preciso um olhar cuidadoso para o TJA. Ele é um bem tombado, precisa ser visitado sempre para manutenções, para que continue sendo imponente, lindo e importante”.

Não à toa, destaca não ter condições de mensurar a relevância do equipamento em amplas frentes – da Cultura à História, passando pela sociedade e a arte – principalmente por estar localizado no centro de Fortaleza, tido como Tatiana como território “completamente morto de cultura”.

“Se esse teatro não tiver uma política que brigue por ele – pelo que ele é e pelo que foi – virará ruína. E o que acontece com todo prédio que vira ruína nessa cidade? Será demolido para dar lugar a um empreendimento dessas construtoras que se matam por qualquer pedaço de chão que valha alguma coisa. É imprescindível, assim, que o Theatro seja a coisa mais importante. Não queremos ficar órfãos de uma história, de memórias, de vida”.


> Histórico de reformas do Theatro José de Alencar

O Theatro José de Alencar já passou por diversas reformas ao longo dos anos – especificamente em 1918, 1937, 1956-1957, 1967, 1973, 1991 e 2005. A mais radical delas aconteceu em 1989-1991, quando passou por restauro completo e processo de modernização da estrutura. Abaixo, você confere detalhes de cada uma.

  • Em 1918, a reforma teve intenção de resolver o principal problema da época: trocar a iluminação cênica – composta por combustores a gás – por iluminação elétrica. A mudança não objetivava alcançar recursos cenotécnicos mais primorosos à cena nem dar mais segurança às estruturas, mas sim tornar a plateia um local menos quente;
  • A segunda reforma aconteceu em 1937, quando o equipamento precisou fechar as portas por determinação da Saúde Pública. Foram restaurados forros da plateia, do palco e do foyer, bem como refeita a pintura;
  • Em 1956 foi a terceira reforma, no governo de Paulo Sarasate. A caixa cênica foi refeita, mas sem alteração nos recursos luminotécnicos, apenas com troca de piso, coberta e sanitários. Porém, o foco principal, como desde a concepção do Theatro, foi nas áreas de plateia;
  • Outra pequena intervenção aconteceu em 1967, mas sem modificações consideráveis. Nesse tempo, o Theatro estava sofrendo fortemente com corrosões e oxidações nas estruturas metálicas, e tinha boa parte do madeiramento corroído por cupins;
  • Antes de o TJA entrar em colapso, aconteceu, em 1973, a quarta e grande reforma, sob o governo de César Cals. Nela, o projeto do teatro-jardim pôde ser concretizado, uma vez ter havido a demolição do Centro Estadual de Saúde, dando lugar ao jardim projetado por Burle Marx. A reforma continuou priorizando a área de plateia, e tinha o objetivo principal de devolver à edificação as características originais. Praticamente todo o Theatro foi refeito, inclusive a recuperação de peças delicadas. Alterações arquitetônicas na caixa cênica, contudo, não foram realizadas. Correções estruturais foram feitas, mas as características de manobra e quantidade de varas cênicas foram mantidas como originalmente;
  • De forma semelhante à reforma de 1973, quando o Theatro estava prestes a colapsar, no ano de 1989 o José de Alencar voltou a enfrentar uma situação-limite. Estava bastante degradado. O restauro realizado à época deixou a casa no mesmo nível técnico das melhores salas de espetáculos do País;
  • A mais recente reforma data de 2005 quando foram contemplados coberta, fachadas, saguão, foyer, pátio nobre, palco, plateia, frisas, camarotes, jardim, camarins, copa, porão, instalações hidráulicas, instalações de ar-condicionado e o Teatro Morro do Ouro.