Futuro presente: 'A natureza ao redor está celebrando nossa parada', diz o escritor Ailton Krenak

A partir deste domingo (17), o Diário do Nordeste publica a série “Futuro presente”, que discute, em três entrevistas, as possíveis mudanças comportamentais e sociais frente à pandemia. O jornalista e escritor indígena Ailton Krenak é o primeiro convidado a pensar um “novo mundo”

Ailton Krenak carrega desde o nome a reflexão que o contexto de pandemia do novo coronavírus tem nos exigido. “Kre”, como ele mesmo explica em seu “Ideias para adiar o fim do mundo” (2019), significa “cabeça”, e “nak” vem de “terra”. Tal como seus ancestrais indígenas da região do Médio Rio Doce, em Minas Gerais, o escritor integra a constelação de pessoas que não consegue se conceber sem essa comunhão com o planeta, e é exatamente sobre esse sentimento de unidade homem-natureza que ele primeiro vem nos alertar. 

“A pandemia veio para dar um choque de realidade nas pessoas, porque só os humanos tiveram que parar e observar que a natureza ao nosso redor está celebrando nossa parada”, introduz, enquanto vai ao quintal, joga água nas plantas e colhe mamão do pé, em sua aldeia, perto dos seus.

Nós somos natureza e essa interdependência é vital. Se a gente ignorar isso, a gente morre. A ideia de uma vida separada da natureza só pode significar o fim da nossa experiência de compartilhar vida na terra com os outros seres, com as florestas, com os rios, com outras espécies, inclusive aquelas que a gente sabe que estão na lista de extinção e que a gente trata como se fosse só uma notícia remota. Como se essa contagem fosse previsível e isso não fosse um alerta para o próximo sujeito que vai entrar na lista: o homo sapiens, nós mesmos”.

Krenak fala por um povo brasileiro que, por compreender essa relação intrínseca do homem com o ambiente que o cerca, resiste a ideia colonial e, por que não dizer capital de “progresso”, há mais de 500 anos. Uma população que, nos anos 1980, precisou escrever na Constituição sua existência, negando toda e qualquer forma de apagamento por parte de literatos, antropólogos e religiosos. Escândalo que, ainda hoje, faz o escritor levantar todos os dias, convocando os parentes indígenas para reafirmar que querem continuar vivendo. 

É provável que, por esse difícil histórico, ele não se veja exatamente aterrorizado com o contexto atual. “Eu não tenho mais medo agora do que tive em outras épocas. A situação da pandemia não me põe num estado de alerta especial, me põe no sentido de preocupação com o tanto de gente que está morrendo e sofrendo. Não posso ser indiferente a tanto sofrimento ao meu redor”, pontua.

Para falar a verdade, o mundo que para muitos de nós “acabou” com a chegada do coronavírus, talvez nunca tenha existido de fato para os Krenak e demais pessoas que integram o “clube da sub-humanidade”, usando as mesmas palavras do escritor. Mas entre o núcleo seleto que compõe a dita “humanidade” e os outros 70% que vivem na periferia do planeta, há um abismo que a Covid-19 também penetrou, provavelmente para reduzir tamanhas distâncias criadas pelo homem.

Desafios

Assim, quando ansiamos pela ideia de um “mundo pós-pandemia”, ignoramos o que a Terra quer nos dizer agora. “Seria um escape dessa realidade, e isso não é bom. Por isso eu digo que a gente teria que viver cada dia como um dia. Hoje nós estamos vivendo o dia de hoje. Por que a gente vai ficar ansioso querendo saber como vai ser o pós-pandemia? Se a gente não sabe como que vai atravessar esse período. Acho que é mais um desejo de saber o que vai ser depois, do que uma necessidade”.

Ao questionar o que é realmente necessário, o escritor lembra de uma resposta de Mahatma Gandhi para um jornalista inglês que o perguntou se era possível a Terra ter tudo para todos. “Ele teria respondido: a Terra tem o necessário para todo mundo, mas somente o necessário. E ninguém necessita de um avião, um roll royce, uma casa na cidade e outra na praia. Aí, decididamente, não tem para todo mundo, só para alguns”.

Krenak chama atenção aqui para o egoísmo humano e para uma necessária revisão das nossas desigualdades. Olhar ao nosso redor e garantir a todos a liberdade de ir e vir sem sofrer com uma bala perdida; ou ainda a possibilidade de tomar um café ou ter um prato de comida podem ser, na visão dele, um dos principais desafios futuros. Ou seriam presentes?

Caminhos

Nesse processo de reencontro com nossos valores, porém, muitos podem ser os desvios. Achar, por exemplo, que a tecnologia é a solução de todos os problemas e que as ferramentas virtuais são as respostas para o viver contemporâneo é, na visão de Krenak, só mais uma forma de dependência. 

A gente quase vive como se fôssemos uma prótese do planeta. Pois bem, se todo mundo já tem um apêndice, esse aparelhinho, que já virou quase uma segunda identidade das pessoas, a crítica é a seguinte: Será que esse alerta da pandemia não é uma convocação pra gente diminuir a nossa dependência dos aparatos extra natureza? Porque tudo que é natural está seguindo seu curso”, provoca.

“Será que isso não é pra ver que a gente já tem tudo do melhor pra gente viver, e que a gente não precisa dessa tralha tecnológica toda que nós arrastamos como se fosse nosso rabo pra gente existir no mundo contemporâneo? É mais uma pergunta do que uma dica de como sair dessa. É uma pergunta se nós não estamos ficando tão dependentes disso a ponto de daqui a pouco cada um ter que comprar um respirador”, questiona. Por essa lógica, aliás, um colapso no fornecimento de energia elétrica seria outro pesadelo para os seres humanos. E tudo continuaria girando em torno do consumo, e não das relações essenciais. 

Diferenças

Hoje, ao falar dos próprios sonhos, Krenak aposta na potência de despertar todos os dias para contemplar os novos sentidos de estar vivo. Acredita que a vida já é um presente e que não precisa de nada além para ter contentamento e gratidão. E quando diz isso, segue a sabedoria dos antigos, que costumavam dizer: “Você está vivo? Então não se preocupe, porque todas as outras coisas você pode. Você já está vivo!”.

Mas o escritor sabe que nem todo mundo pensa assim.

Eu fico observando que tem gente que não tem contentamento de estar vivo. Quer alguma coisa além de estar vivo, aí enche a vida de mercadoria, enche a vida de coisas. Isso aí é aquela pessoa que se não tiver um carro novo, uma roupa nova, acha que não tá legal. Então, essas pessoas, na verdade, já estão vivendo na UTI mesmo. Elas estão vivendo numa Unidade de Consumo Intensivo, uma UCI. Se eles pararem de consumir, eles morrem”, analisa Krenak.

No fim, é também a respeito dessas diferentes formas de pensar que precisamos refletir. Afinal, se quando entramos nessa não éramos iguais, por que haveríamos de ser na hora de sair? “Como nós seres humanos espalhados pelo mundo afora somos muito diversos, temos muitas diferenças de situação, tirar uma conclusão sobre como seremos todos depois pode ser um engano. A gente vai sair diferente disso, mas cada um com uma diferença própria, inerente”, acredita o escritor indígena.

Sob essa perspectiva, é preciso considerar aqueles que revisarão os seus hábitos, os que reforçarão alguma prática sustentável que já adotavam antes e ganharão mais espaço para discutir isso, mas também aqueles que em nada mudarão.

Não gosto muito da palavra tolerância, porque eu acho que ela não consegue dar conta da necessária fluidez que precisamos ter para entender diversidade. Mas é mais ou menos a ideia de que nós vamos ter que passar pela ideia de tolerar a diferença para aprender a aceitar a diferença depois. Porque senão a gente vai querer sair da pandemia querendo matar uns aos outros”, teme Krenak. 

Para isso, a sua resposta é uma saudação que usou outro dia com estudantes da Universidade de Brasília: “Paz, ciência. Ciência, paz. Paz e Ciência. A ideia de paz-ciência é paz com ciência, com a consciência. Não é uma paz assim que você fica, ‘ai quero ficar na minha’, é com a consciência de tudo que está ao seu redor, inclusive com quem pensa diferente de você: paciência!”.