Aviões do Mestre Françuli estão expostos no seu Museu Orgânico em Potengi

Inaugurado dia 15 de novembro, o espaço já recebeu mais de 300 visitantes

No fim dos anos 1940, um garoto martelava um sonho: “Olhe, meu pai, quando eu morrer, eu vou deixar uma história no Potengi”. Nascido e criado no município, desde pequeno ele tinha paixão por avião ou qualquer outra coisa que voa. Fosse passarinho ou urubu. A vontade mesmo era de reproduzir aquilo com o próprio corpo, como chegou a fazer, saltando de uma aroeira com “asas” de palha de coco, uma das primeiras invenções. 

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Francisco Dias de Oliveira, por muitos conhecido como Mestre “Françuli”, mas hoje, aos 76 anos, autodenominando-se “Françuí”, logo encontrou outras maneiras de voar. Ainda na infância passou a construir pequenos aviões com madeira de embiratanha, dessas que se corta até com as unhas. A brincadeira reunia a criançada debaixo de um pé de Juá e, quando encerrava, o inventor guardava os objetos. Os que quebravam praticamente não tinham conserto, porque nem cola havia direito na época. 

Sem nunca ter entrado ou visto de perto uma aeronave, apenas com as observações que fazia do céu, Françuí construiu esses primeiros moldes só com a imaginação. A fabricação em flandre e zinco viria em seguida. A técnica passou por aperfeiçoamento logo que ele voou pela primeira vez em direção ao Amapá, a convite de um amigo, há cerca de 15 anos. A miniatura ganhou mais detalhes que a aproximaram da realidade, justamente pela observação cautelosa do mestre durante o voo. 

Medo é palavra desconhecida para ele quando se trata de voar. “Não tenho medo de jeito nenhum. Porque eu sou assim, sou nervoso, sou uma pessoa nervosa estando no chão. Eu saio do chão, pronto, tenho coragem pra tudo no mundo”, conta, sentado na sala da casa da ex-mulher, no Crato, para onde veio em tratamento de uma bactéria e de uma pneumonia, acompanhado dos dois filhos, há cerca de quatro meses. 

“Eu andei morrendo”, desabafa. Não fosse a transferência de cidade em tempo hábil para a recuperação da saúde, ele sequer teria acompanhado a inauguração do Museu Orgânico que leva seu nome, em Potengi, em 15 de novembro deste ano. Mas hoje já ensaia alguns passos com uma muleta, inquietando-lhe mais a distância que está de seus aviões. 

Oficina 

A construção do museu começou antes mesmo de a Casa Grande e o Sesc lhe procurarem.

“Desde pequeno que eu já tinha esse plano, pra deixar história eu já tinha um plano. Aí eu fui imaginando, fazendo uns aviãozinho, botando lá na casa de meu pai e tudo. Ele me perguntava por que eu queria daquele tanto de avião e eu respondia: Pai, isso aqui ainda vai ter tanto valor”. 

Quando completou 36 anos, Françuí comprou um ponto em Potengi. “Botei as peças lá: aqui vou fazer um museu. Aí fiquei, fui trabalhando, trabalhando, trabalhando, até que eu construí”, rememora. 

Quatro décadas depois, a oficialização do espaço conferiu-lhe também uma reforma. “Agora tá uma diferença grande. Lá não tinha janela, era meio escuro. Tinha uma porta lá no fim, eles abriram duas janelas no meio, ficou bonito demais, claro... Pintaram de azul. Ficou bonito demais! Quando cê chegar lá, você vai ver”, estimula. 

Como se estivesse lá, o Mestre nos conduz da forma como faria se assim pudesse. “Primeiro eu mostraria uma ultraleve que tem lá. Depois uns aviões. Lá tem muito aviãozinho. Lá tá bonito. Todo mundo que chegou lá achou bonito. Lá tá bonito, viu?”, insiste. “Tá meu retrato na parede, uma moto feita de sucata que eu fiz pra caminhar pra roça”, descreve. 

A quantidade de aeronaves ele não sabe precisar. “Ah, eu não contei não, tem muitos. Eu projetei há muito tempo os que têm lá, tem de todo modelo: tem daqueles comprido assim, tem da Avianca, que é o que eu fui pra São Paulo, aí vinha olhando pra ele direitinho”, recorda. 

Visita 

Enquanto Mestre Françuí se recupera no Crato, é o filho de criação, Zé, quem abre as portas do museu em Potengi. Ele, aliás, é o único que vem dando continuidade ao trabalho com os aviões, apesar do interesse dos outros dois filhos de sangue. O ponto é dividido entre a oficina, a lojinha com aviões de R$30 a R$150 à venda, e a exposição, que mais parece o céu, de tão azul. 

No percurso, além de fotografias, aviões em miniatura de diferentes modelos e ferramentas de trabalho, o visitante pode se deparar ainda com uma réplica do Mestre Françuí feita por artesãos do Centro Cultural Mestre Noza. É como se ele estivesse ali. 

O livro de visitas já contabiliza mais de 300 pessoas, público impulsionado pela 20ª Mostra Sesc Cariri de Culturas, que aconteceu nos dias seguintes à inauguração. A vontade do mestre é levar para o Crato alguns moldes, a fim de não ficar parado. O que está à venda hoje na oficina é somente produção de Zé, e, claro, ainda não tem o acabamento que só o inventor sabe dar. 

Uma coisa é certa: a história está lá, tal como ele sonhou aos seis anos de idade. Hoje, aliás, um dos pequenos aprendizes desse fazer é um garoto de apenas sete, que Françuí acredita ter até parentesco. É assim, no comecinho da vida que os sonhos começam a ganhar forma, e mesmo com o passar do tempo, eles ainda têm vez. “Eu quero agora é pilotar”, arrisca o mestre, soltando-se da muleta para dar mais alguns passos.

Onde fica

Museu Oficina do Mestre Françuí

Miniaturas de aviões de flandre e zinco

Endereço: Rua Beco do Françuli S/N

Potengi (522km de Fortaleza)

Contato: (88) 9946.29887

 

*A jornalista viajou ao Cariri a convite do Sesc-Ceará