Um cearense na Polícia americana

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
09 de Julho de 2005 - 21:04

O cearense Wagner Leite, hoje com 47 anos, natural de Fortaleza, jamais imaginava que um dia iria se transformar em policial, muito menos no exterior. Há 27 anos, embarcou para os Estados Unidos, levando na bagagem o sonho de se formar em Engenharia Elétrica. Acabou virando ‘xerife’, depois de participar de cursos de investigação. Após uma década longe da terra natal, ele esteve em Fortaleza, recentemente, revendo familiares e amigos. Já é policial americano há 19 anos. Atualmente, reside e trabalha na cidade de Port. St. Lucie, no Estado da Flórida. Em entrevista ao Diário do Nordeste, Wagner falou de sua experiência.

Diário do Nordeste - Como o Sr. tornou-se um policial nos Estados Unidos?

Wagner Leite - Sai do Ceará há 27 anos, com visto de turista. Fui estudar engenharia elétrica nos Estados Unidos. Lá, acabei fazendo cursos de investigação e fui convidado para ingressar na Polícia. Há 19 anos estou na Polícia americana. Já trabalhei como policial em três Estados: Califórnia, Texas e agora estou na Flórida. No Texas, atuei como xerife, trabalhando como responsável pela administração da cadeia local. Hoje, estou no Departamento de Polícia da cidade de Port. St. Lucie.

—- Qual sua atribuição nesta atual função?

Wagner - Trabalho na Unidade de Prevenção ao Crime (Unit Prevention Crime). Desenvolvemos um trabalho junto à população sobre como se prevenir de crimes diversos, como acidentes de trânsito e outros. Na Flórida hoje residem em torno de 250 mil brasileiros e em Port St. Lucie são aproximadamente 13 mil brasileiros.

— Quais os principais crimes que inquietam a região onde o Sr. atua?

Wagner - Principalmente os chamados roubo de identidade, invasões a residências e roubo de automóveis. Não temos o registro de crimes que ocorrem em Fortaleza, por exemplo, como os ‘seqüestros-relâmpagos’. Nos Estados Unidos há medidas que impedem roubos de grandes somas de dinheiro.

— Que medidas são estas

Wagner - Por exemplo; nos postos (de combustíveis) não pode haver no caixa mais que US$ 50,00 (cerca de R$ 118,38). As agências de banco não podem ter guardados mais que US$ 3,5 mil (cerca de 8,28 mil). No caso de ocorrer um assalto em um posto ou em um banco e o valor roubado for superior ao permitido pela lei, são aplicadas multas muito pesadas. É uma questão de segurança para a população e as leis são criadas pelos Estados ou mesmo pela cidade. Nas áreas onde esteja sendo registrado um grande número de furtos em residência a Polícia trabalha com o monitoramento através de GPS (monitoramento via satélite através do Sistema de Posicionamento Global).

— E quanto à ‘Tolerância Zero’?

Wagner - A lei muda de Estado para Estado e até mesmo de uma cidade para outra. Mas há um intercâmbio entre as Polícias e os xerifes. Cada cidade, por exemplo, pode determinar a hora que os bares devam fechar e o horário em que é proibida a venda de bebida alcoólica.

— O cidadão tem facilidade para adquiri e portar arma?

Wagner - Também varia de cidade para cidade. Em algumas delas o cidadão encontra facilidade para obter uma arma ou um porte, mas é obrigado a fazer um curso preparatório de oito horas. Com o curso ele fica habilitado para possuir uma arma em sua casa, sabendo como pode e quando deverá usá-la.

— Como ocorre a formação de um policial americano?

Wagner - São seis meses de curso de formação em uma academia. A formação é de responsabilidade estadual. O candidato fica praticamente internado. O treinamento é muito duro, em regime militar. Ele passa por uma profunda inspeção (investigação social), podendo ser investigado até pelo FBI.

— Quanto ganha um policial americano?

Wagner - O salário inicial é de US$ 41 mil por ano (cerca de R$ 97 mil). Mas há casos de policiais, como os da ‘Narcóticos’, que podem chegar a receber até US$ 100 mil por ano (cerca de R$ 236,7 mil).

— E a jornada de trabalho? O Policial americano pode fazer ‘bico’ (atuar em outra atividade)?

Wagner - O policial trabalha durante cinco dias na semana, com oito horas de jornada diária. Nas horas em que estiver de folga ele pode exercer outra atividade, se quiser. A Polícia lhe dar autorização legal para ele está na outra atividade. Tudo é devidamente oficializado (legalizado). As autoridades sabem onde o policial está trabalhando, o que ele está fazendo quando não se encontra em seu serviço policial (Wagner exerce também a atividade de corretor de imóveis).

— Que recursos tem o policial para sair às ruas e oferecer segurança à população? Que meios ele dispõe para enfrentar um criminoso?

Wagner - Normalmente, o policial está sozinho em uma viatura. Todo policial carrega um cinturão que pesa 14 quilos, onde estão uma pistola Glock (calibre Ponto 40), com capacidade para 15 tiros; mais dois pentes reservas cada um deles com 15 balas, um spray de gás de pimenta, muito usado para dominar e imobilizar o oponente e, agora, estão sendo usados dardos que emitem descarga elétrica. Usa ainda algemas, rádio de comunicação e outros equipamentos de proteção. No carro (viatura) há um fuzil AR-15 e computador de bordo. Mesmo sozinho, o policial é monitorado o tempo inteiro através do GPS e, se precisar de ajuda (reforço), isto ocorre rapidamente, em poucos minutos outras patrulhas já estarão ali.

— Quem trabalha fardado e quem trabalha à paisana?

Wagner - Oitenta por cento dos policiais usam uniforme. Eu uso uniforme diariamente, mesmo estando na Unidade de Prevenção ao Crime. À paisana trabalha, geralmente, o pessoal da ‘Narcóticos’ e os detetives que estão em investigações.

— Qual o nível de ligação entre a Polícia e a Justiça

Wagner - O criminoso, logo que capturado, é imediatamente apresentado ao juiz. O tempo de permanência na Polícia é rápido, apenas o suficiente para a investigação. Apresentado ao juiz, é encaminhado para a cadeia onde vai aguardar o julgamento. Há casos em que o tempo entre a investigação e a condenação (julgamento) é de apenas 30 dias. Em um mês ele já recebe a sentença.

— Como se dá a relação entre a Polícia e a Imprensa? Os jornalistas podem acompanhar as investigações de um crime como ocorre aqui no Brasil?

Wagner - Sim, os repórteres podem ter acesso às informações sobre a investigação de um crime. Os jornalistas também ajudam o trabalho da Polícia, inclusive divulgando fotos de criminosos procurados e no trabalho de prevenção ao crime. Na minha cidade tenho tido a ajuda dos jornalistas no meu trabalho de prevenção ao crime.

Fernando Ribeiro


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