Local onde se deveria encontrar amor, acolhimento e parceria, as residências privadas foram os locais onde mais crimes aconteceram com pessoas LGBTQIAPN+ no Ceará em 2025. Entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2025, o Painel Dinâmica da Secretaria da Diversidade (Sediv) do Ceará contabilizou 91 vítimas de crimes como homofobia e transfobia em casas.
22,3% dos crimes denunciados em 2025 no Ceará ocorreram dentro de casa
Durante o ano passado, o Ceará teve 408 vítimas de crimes homofóbicos e transfóbicos documentados pelos dados da Polícia Civil do Ceará (PCCE) e da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp).
Essas estatísticas evidenciam ainda um perfil disparado de vítimas: homens cis, gays, de faixa etária entre 24 e 29 anos. Há também uma boa parcela de pessoas que não se revelam, com medo de represálias.
O secretário da Diversidade do Ceará, Renan Ridley, reconhece a triste realidade da homotransfobia dentro da casa de tantos jovens. Ele ainda indica que muitas violências ocorrem também em ambiente de trabalho.
Segundo ele, essa realidade demanda um processo educacional contínuo, que garanta ambientes seguros de acolhimento. O ambiente doméstico abriga ainda outra dura realidade: a da violência institucional e psicológica.
Muitas vezes essas violências também são violências de outras naturezas. Não apenas violência física, mas violência psicológica, violência material, patrimonial, violência institucional, quando muitas vezes procura um serviço e não é bem atendido. Então, nós temos feito o enfrentamento a todas essas violências para garantir cada vez mais um ambiente, uma sociedade, né, que crie um ambiente saudável para nossa população de acolhimento, né?
Na Delegacia de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Intolerância Religiosa ou Orientação Sexual (Decrin) do Ceará, a delegada Yasmin Pontes disse ao Diário do Nordeste que são comuns boletins de ocorrência em que filhos denunciam os próprios pais, seja por agressão verbal ou física.
Violência em estabelecimentos e via pública
Realidade também alarmante: o segundo local onde mais pessoas que não são heterossexuais são violentadas é a via pública (74 casos). Em casa comercial, foram 37 vítimas, contra 18 em bares e restaurantes.
Um pesadelo ocorreu na calçada de um bar no município de Missão Velha, no Cariri cearense, e marcou para sempre a vida da jovem Ana Návila Soares Silva, a Anny.
dos casos em 2025 ocorreram em bares.
A jovem de 24 anos foi expulsa aos gritos de um bar enquanto estava com sua namorada, em dezembro de 2025. O caso viralizou nas redes sociais após o vídeo da violência ser divulgado, em que o dono do estabelecimento dizia "não aceitar" as duas se beijando.
Veja vídeo
Anny relembra que estava somente "trocando afetos" com a companheira, assim como qualquer casal. Ela disse à época que, no momento em que ela e a parceira foram abordadas, o bar estava praticamente vazio, com somente outro casal heterossexual em uma mesa distante. "Ele já veio revoltado e levantou o tom de voz, muito agressivo", conta.
"Fico muito triste que, em pleno Século 21, a gente ainda passe por esse tipo de situação, por mais que seja em uma cidade pequena. Somos pessoas normais, estamos aqui", desabafa a vítima.
Seis meses após o crime, que foi denunciado à PCCE e atualmente está tanto em um processo criminal quanto cível, de danos morais, Anny relata momentos de dificuldade vividos na cidade, como olhares, e ainda a sensação de medo de que a pessoa poderá sair impune.
"Apesar de muito apoio, a gente também viu pessoas falando mentiras. Inicialmente o processo criminal estava tramitando em Missão Velha, mas a gente viu que não estava andando e transferimos para Barbalha", conta.
Inicialmente, Ana descreveu que teve uma experiência negativa na Delegacia de Missão Velha, ao reportar a homofobia. "Fizeram pouco caso", e o delegado foi "grosso", segundo ela.
Apesar dos traumas, a massoterapeuta e estudante de fisioterapia não se arrepende de ter denunciado.
"Eu espero que não só no meu caso, mas em outros casos que estejam acontecendo, as pessoas consigam, né, se expor e mostrar que o Brasil ele tem lei e a gente não tá para brincadeira não, porque foi muito triste", diz.
Homofobia é alvo de denúncia pelo MPCE
No último dia 18 de junho, o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) ofertou denúncia contra Ruy Arrais Maia Neto, homem dono do bar acusado de homofobia contra Anny e namorada.
Eles pediram à Justiça que ele seja condenado por homofobia, nos moldes da lei 7.716/89, mesmo que o acusado tenha negado motivação discriminatória em sua ação de expulsar as jovens.
Conforme o advogado Danilo Loiola, que representa o casal de vítimas, há uma audiência de conciliação marcada para 29 de julho.
O caso de Anny é mais um dos que entram para o rol de processos criminais por homofobia, e mostra na prática os efeitos da criminalização, que completou sete anos neste mês.
Veja os tipos de locais onde houve vítimas de LGBTFobia no CE em 2025:
- RESIDÊNCIA PARTICULAR: 91 vítimas
- VIA PÚBLICA: 74 vítimas
- AMBIENTE VIRTUAL (INTERNET): 59 vítimas
- CASA COMERCIAL: 37 vítimas
- NÃO INFORMADO: 26 vítimas
- BAR, RESTAURANTE, ETC: 18 vítimas
- HOSPITAL, CLÍNICA, ETC: 17 vítimas
- ESCOLA/COLÉGIO: 14 vítimas
- EDIFÍCIO PÚBLICO: 11 vítimas
- HABITAÇÃO COLETIVA: 7 vítimas
- VEÍCULO DE APLICATIVO: 5 vítimas
- PRAÇA: 4 vítimas
- UNIVERSIDADE/FACULDADE: 4 vítimas
- PRAIA: 3 vítimas
- TEATRO, CINEMA, CASA DE SHOWS: 3 vítimas
- REPARTIÇÃO PÚBLICA: 3 vítimas
- CONVENTO, IGREJA, ETC.: 3 vítimas
- EVENTO: 2 vítimas
- INST. FINANCEIRA (BANCO, CX ELET): 2 vítimas
- METRÔ: 2 vítimas
- CAMPO DE FUTEBOL (SUBÚRBIO): 2 vítimas
- FARMÁCIA: 2 vítimas
- ESTACIONAMENTO: 2 vítimas
- FAVELA: 2 vítimas
- INDÚSTRIA: 2 vítimas
- RODOVIA: 2 vítimas
- ESTÁDIOS, GINÁSIOS, ETC.: 1 vítima
- FORTAL: 1 vítima
- HOTEL, PENSÃO, ETC: 1 vítima
- AEROPORTO, PORTO, RODOVIÁRIA: 1 vítima
- SINDICATO: 1 vítima
- ÔNIBUS: 1 vítima
- CRECHE: 1 vítima
- MERCADO PÚBLICO, FEIRA: 1 vítima
- CLUBE: 1 vítima
- AEROPORTO: 1 vítima
- PROPRIEDADE AGRÍCOLA: 1 vítima
Créditos
Matheus Facundo, Repórter | Emerson Rodrigues, Supervisor de Jornalismo | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | Louise Dutra , Arte | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | André Melo, Gerente de Audiovisual | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo