O agro pergunta: a economia do Ceará garantirá a Transnordestina?

Empresários têm dúvidas sobre o que transportarão, com frete menor, os trens da ferrovia

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 06:07)
Legenda: Há duvidas entre os empresários do agro cearense sobre se a economia do Nordeste garantirá a operação da Transnordestina
Foto: Divulgação
Um oferecimento de:

Existe no Ceará, no Oeste de Pernambuco, no Norte da Bahia e no Sudeste do Piauí uma economia com força suficiente para viabilizar a operação econômica e financeira de uma ferrovia – a Transnordestina – que já absorveu cerca de R$ 14 bilhões em investimentos?  

Esta e outras perguntas foram ouvidas na última segunda-feira, durante uma reunião que juntou 31 empresários da agropecuária cearense, os quais manifestaram suas dúvidas e incertezas acerca do gigantesco empreendimento em implantação pela Transnordestina Logística S/A, empresa que integra o Grupo CSN capitaneado pelo industrial Benjamin Steinbruch. Eles mesmos responderam que não.  

Estiveram presentes à reunião empresários do agro que também são industriais, agroindustriais e que atuam, igualmente, no setor da logística. Um deles, falando pausadamente, contou que, desde 1992, opera na logística do transporte, tendo, inclusive, dirigido aqui uma empresa multinacional do setor. Ele resumiu assim sua preocupação acerca do tema principal da reunião: 

– O que causa a falta de navios é a falta de mercadorias para o seu transporte. Olho para a Transnordestina, ainda em construção, e me pergunto: ela vai transportar o quê? Da região do Matopiba (Mato Grosso, Tocantins, Piauí e Bahia) virá muito pouco para o Ceará, e daqui para lá, menos ainda – disse ele, recebendo dos seus colegas meneios de cabeça como sinal de concordância. 

O mesmo empresário citou, como comparação, o Equador, um país cuja área é menos da metade da área do estado da Bahia. No ano passado, os equatorianos exportaram 400 milhões de caixas de banana Cavendish (a nanica), o equivalente a 400 mil contêineres. As exportações nordestinas de banana no Nordeste alcançam, no máximo, 2 milhões de caixas por ano. 

Outro empresário apimentou o debate, acrescentando uma observação pertinente e muito atual. Ele disse, ponto na voz um misto de revolta e lamentação: 

– Ora, se nós não temos concluído, ainda, o Projeto São Francisco de Integração de Bacias, que se arrasta desde 2007, ou seja, se nós não conseguimos terminar até agora a logística da água, como vamos viabilizar e utilizar a logística do trem? Esse projeto ferroviário já consumiu R$ 14 bilhões, bem mais do que os R$ 4 bilhões estimados inicialmente. Também duvido que essa estrada de ferro esteja pronta no fim de 2027, como está prometido. 

A mesma voz da logística retomou a palavra para lembrar que havia ao redor do mundo dezenas de grandes empresas de navegação. Há hoje apenas cinco: a MSC (Mediterranean Shipping Company), com sede na Suíça, maior operadora de navios porta-contêineres; a CMA-CGM, francesa, cujos navios escalam Pecém e Mucuripe; a Maersk, dinamarquesa, gigante dos mares, que também escala o Pecém; a Cosco, chinesa, que avança em todos os mercados internacionais; e a Hapag-Lloyd, alemã. São essas cinco empresas que dominam 80% da navegação marítima do planeta. Detalhe: a Maersk "tem excelente serviço que liga o Pecém à Europa", proclamou a mesma voz. 

Outro empresário, este com atuação na construção pesada, lembrou o que se passa com as rodovias cearenses em relação às de outros estados. Ele citou a BR-304, que liga Boqueirão do Cesário, no Ceará, a Natal, no Rio Grande do Norte:  

– Ela está sendo duplicada, em ritmo do frevo, desde Mossoró até a capital potiguar. E nós aqui estamos pelejando para duplicar a BR-116 até Boqueirão do Cesário. Temos ouvido muitas promessas, mas por enquanto são só promessas", completou ele. 

Outra voz, com especialização em recursos hídricos, chamou a atenção para o El Niño.  

– Se ele vier muito forte, como a ciência está a apontar, teremos problemas, porque as motobombas que duplicarão a Estação Elevatória de Salgueiro (PE), que bombeia água do São Francisco para o açude Castanhão, ainda estão sendo fabricadas na China e só chegarão em agosto de 202 – ele alertou, tendo o cuidado de transmitir uma boa novidade: 

– A obra de duplicação do Eixão das Águas, canal que liga o Castanhão ao açude Pacajus, reforçando o abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza, estará pronto até o fim do próximo mês de dezembro. Temos, então, uma boa notícia gerada pelo governo estadual, mas temo que, sem as novas motobombas de Salgueiro, a ameaça do enfrentamento de um racionamento de água.  

Para evitar essa possibilidade, o governo do Estado, por meio da Cogerh, já adota providências. 

Estes temas ainda merecerão mais comentários desta coluna.

DESTAQUES DO COMÉRCIO EXTERIOR DO CEARÁ ESTARÃO NA EXPOLOG

Quem trabalha para levar produtos cearenses aos mercados internacionais ganhará reconhecimento público no próximo dia 24 de novembro, quando o Grupo Comex, presidido pelo empresários Marcos Oliveira, promoverá a segunda edição do Prêmio Destaques do Comércio Exterior do Ceará. 

O prêmio foi criado para valorizar profissionais cuja atuação ajuda a fortalecer o comércio exterior e a impulsionar a economia do Ceará. Por isto, a entrega do prêmio será feita naquela data durante almoço de confraternização do grupo, no Centro de Eventos, dentro da programação da 21ª Expolog, a Feita Internacional de Logística.

M. DIAS BRANCO PAGARÁ R$ 208 MLHÕES PELA GRESPAN 

Ontem, em comunicado ao mercado, a cearense M. Dias Branco informou que pagará R$ 208,4 milhões pela compra de 80% do capital da empresa paulista Grespan, especializada em pães congelados. Esse montante será pago integralmente, à vista, no fechamento da operação. 

A aquisição será realizada por meio da Jasmine Indústria e Comércio de Alimentos, controlada da M. Dias Branco. Do valor total, R$ 2,5 milhões serão retidos para eventuais ajustes relacionados à dívida líquida e ao capital de giro, a serem realizados após a conclusão do negócio. 

Essa conclusão está sujeita ao cumprimento de obrigações e condições precedentes usuais em operações dessa natureza. Segundo a M. Dias Branco, as demais informações relativas à aquisição que dependam de sua conclusão serão refletidas oportunamente nas informações financeiras da companhia. 

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