Eleição: finalmente, chegou a hora das propostas. Ou não?

Pelo que se vê, ouve e lê, o que haverá, em vez de propostas, será a troca de acusações e desaforos entre os candidatos.

Escrito por
Siará Teh Summit, M. Dias Branco, Tcnologia, Inovação, Inteligência Articial, producaodiario@svm.com.br
Legenda: A corrida pelo Palácio do Planalto chegou ao segundo turno e promete fortes emoções até o próximo dia 25, data da votação
Foto: Valter Campanato / Agência Brasil
Um oferecimento de:

Reagindo ao resultado do primeiro turno da eleição para presidente da República, realizado domingo passado, o mercado financeiro emitiu um sinal à dupla que chegou ao segundo turno a ser realizado no próximo dia 25: os juros, que permanecem demasiadamente altos, cairão automaticamente se ambos os candidatos prometerem um ajuste fiscal capaz de estancar a dívida e reduzir o custo do seu serviço, hoje na casa de R$ 1,2 trilhão por ano. E não só mandou um sinal, como mostrou, na prática, como isso é possível: os juros futuros, ontem pela manhã, chegaram a cair para pouco mais de 12% ao ano. Hoje, a taxa básica Selic, usada em operações interbancárias, está paralisada em 13,75% ao ano. 

Aqui, surge a pergunta: você conhece o plano econômico de Flávio Bolsonaro para o ajuste das contas públicas? E o plano de Lula, você conhece? O que há, por enquanto, são acenos da economista Daniella Marques, que lidera a equipe econômica de Bolsonaro, e do economista Dario Durigan, ministro da Fazenda do governo do presidente Lula. Só. Não há detalhamento do que os dois finalistas da eleição pretendem fazer na economia, se forem eleitos. É por isto que, nesta nova etapa do processo eleitoral, os debates entre os dois candidatos são indispensáveis para que o eleitorado possa entender – e deliberar na hora de votar --- sobre o que cada um pretende fazer para tirar o país do atoleiro econômico e financeiro em que está metido. 

Mas o ajuste fiscal, qualquer que ele seja, severo ou brando, não se fará apenas pela vontade do chefe do Poder Executivo. Será necessário combinar com os russos do Congresso Nacional, o Parlamento, que saiu das urnas prenhe de deputados e senadores ideologicamente à direita, mas, também, infelizmente, recheado de fisiologistas que só pensam naquilo, ou seja, nas emendas parlamentares, por meio das quais fazem, ou deixam de fazer, obras de toda espécie em suas bases políticas (estão aí as dezenas de inquéritos abertos pela Polícia Federal para apurar desvio de verbas dessas emendas).  Neste ano, foram mais de R$ 50 bilhões distribuídos aos 513 deputados e aos 81 senadores em emendas parlamentares. É muito dinheiro para pouco resultado.  

Este segundo turno permitirá o debate entre os candidatos, que, finalmente, poderão apresentar seu cardápio de propostas, deixando de lado as acusações e agressões pessoais. Além da economia, esse menu inclui, igualmente, um rigoroso ajuste das contas do governo e uma nova política de segurança pública, motivo de preocupação crescente diante da decisão do governo dos Estados Unidos de considerar terroristas todas as organizações ligadas ao crime organizado na América Latina, incluindo os brasileiros PCC e Comando Vermelho, contra as quais promete agir até militarmente. 

O ajuste fiscal de que o Brasil precisa é do tipo heterodoxo, razão pela qual tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro fazem questão de não o anunciar em sua profundidade, temendo perda de votos de tão impopular ele terá de ser em qualquer circunstância, sob qualquer governo. Prometer agora, neste momento da campanha, extinguir ministérios, abolir milhares de cargos comissionados e funções gratificadas, eliminar supersalários da elite do funcionalismo, acabar com os penduricalhos do Poder Judiciário, reduzir à metade as isenções tributárias e os incentivos fiscais, tudo isso será um tiro no pé e terá o mesmo efeito da explosão de um míssil Exocet na Praça dos Três Poderes em Brasília, algo que neste momento é impossível de acontecer tendo em vista o processo eleitoral e sua circunstância.  

Há o temor de que, em vez de propostas, o eleitor ouça de Lula e de Flávio Bolsonaro mútuas acusações pessoais ligadas ao Banco Master e ao INSS. O mesmo mercado financeiro que reagiu favoravelmente ao resultado do primeiro turno poderá mudar seu humor, se os finalistas da corrida presidencial privilegiarem, na tevê e no rádio, os desaforos. Lula e Flávio já garantiram que participarão dos principais debates na tevê, o primeiro dos quais será na Rede Bandeirantes; o que não garantiram, porém, foi o conteúdo do que dirão neles. A propósito de debates: é muito curto o tempo destinado a cada fala dos candidatos. Como abordar o ajuste fiscal em três minutos? Como tratar da segurança pública, da educação e da saúde nesse mínimo tempo?  

Apesar desses percalços, o debate é necessário e urgente: a data do segundo turno da eleição aproxima-se e ainda não se sabe o que os dois presidenciáveis farão para enfrentar e vencer a crise que se avizinha e se agrava. 

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