Redesenhar o destino

Escrito por
Sávio Alencar salencarlimalopes@gmail.com
(Atualizado às 16:09, em 04 de Janeiro de 2021)

Criança, em Budapeste, Nora Tausz frequentava aulas de piano. Sua professora, ao reencontrá-la, já adulta e casada com o tradutor e crítico literário Paulo Rónai, lembrava-se vivamente da aluna admirável dos anos 1930. Na ocasião, Nora ouviu que até poderia ter sido artista premiada se tivesse permanecido na Hungria, o que a fez pensar: “Isso se não tivesse acabado morrendo num campo de concentração”.

Nascida em 1924, em Fiume, ela e a família, fugindo da perseguição antissemita, aportaram no Rio de Janeiro, em 1941. A história da vida brasileira – e do retorno à Europa, em 1964, em viagem feita com Paulo, judeu húngaro que também migrara para o Brasil – está contada em “O desenho do tempo” (Bazar do Tempo, 2020), memórias que Nora Rónai publicou aos 96 anos.

Frustra-se quem procura um relato melancólico ou autoindulgente. Sabendo que não há alegria perfeita (o irmão morreu jovem e a mãe sofria de leucemia), Nora trabalhou incansavelmente para merecer o seu destino: vendeu creme de porta em porta, formou-se arquiteta pela Universidade do Brasil (hoje UFRJ), foi várias vezes campeã no salto ornamental (quase representou o Brasil nas Olimpíadas de 1948).

O encontro com Paulo Rónai, num passeio à Ilha do Governador, onde ele residia, foi inesperado e definidor. Casaram-se em questão de meses, em 1952. Dezessete anos mais velho, ele “queria casar imediatamente, a jato, ontem!”, relembra a autora. A relação, da qual nasceram duas filhas, Cora e Laura Rónai, durou até a morte dele, em 1992.

“O desenho do tempo” é o testamento de uma vida digna. A pianista cuja carreira foi interrompida triunfaria na natação. Aos 95 anos, como nadadora masters, foi recordista mundial em provas de piscina olímpica. Sua biografia não deixa dúvida: a sorte ajuda os corajosos. Sorte também a nossa, que temos Nora Rónai.

Sávio Alencar
Editor e pesquisador de literatura

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