Deixar o carro em casa precisa ser uma escolha possível

Romper esse ciclo exige recursos públicos suficientes para manter uma boa oferta em toda a cidade

Escrito por Dimas Barreira producaodiario@svm.com.br
22 de Setembro de 2026 - 06:00
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Legenda: Administrador de empresas

No Dia Mundial sem Carro, é comum o convite: deixe o automóvel em casa. A mensagem é importante, mas esbarra numa pergunta muito concreta: para quantas pessoas essa é, de fato, uma escolha possível?

Reduzir as emissões do transporte, diminuir os graves acidentes de trânsito e melhorar a fluidez das cidades exige menos deslocamentos individuais motorizados. Cada pessoa que troca carro ou moto por ônibus ocupa menos espaço nas ruas e contribui para uma cidade mais eficiente e com melhor qualidade de vida.

Mas não basta pedir que pessoas mudem seus hábitos. É preciso oferecer uma alternativa capaz de competir pela escolha delas.

A Constituição reconhece o transporte público coletivo como serviço público essencial. Na prática, isso significa tratá-lo como parte da infraestrutura necessária ao funcionamento da cidade, e não como um serviço que possa existir apenas onde e quando houver passageiros pagantes em maior quantidade.

A demanda caiu ao longo dos anos e quando a oferta cai junto, cria-se um círculo vicioso: ônibus mais demorados e cheios tornam o serviço repulsivo; mais pessoas migram para carros e motos; a demanda diminui ainda mais; e a cidade recebe mais congestionamentos, acidentes e poluição.

Romper esse ciclo exige recursos públicos suficientes para manter uma boa oferta em toda a cidade. O passageiro precisa encontrar ônibus com frequência, sem superlotação, em uma frota nova, confortável e confiável. Precisa caminhar pouco até o serviço e ter informação de qualidade no celular: saber quando o ônibus chegará, quais linhas utilizar e qual o melhor caminho até seu destino.

É evidente que compartilhar um recurso impõe algum grau de inconveniência individual. Um ônibus nunca terá a mesma privacidade de um automóvel. Mas um bom transporte coletivo pode oferecer algo muito mais importante para a sociedade: mobilidade eficiente para milhões de pessoas usando muito menos espaço urbano.

Muitos simpatizam com o Dia Mundial sem Carro e gostariam de aderir. O problema é que o transporte público já não consegue atender às necessidades de boa parte da população.

Por isso, mais do que pedir que o cidadão deixe o carro em casa, precisamos construir cidades nas quais ele possa realmente fazer essa escolha.

E há ainda um enorme benefício adicional: transporte público bom, abundante e barato amplia oportunidades, aproxima pessoas de empregos e educação e ajuda quem mais precisa a escapar da pobreza.

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