Com 832 quilômetros já executados dos 1.053 km da Fase 1, a Transnordestina chegou a 84% de conclusão e se aproxima do Porto do Pecém. A obra, estimada em R$ 8 bilhões, é um dos símbolos do momento que o Ceará vive em infraestrutura. Ao lado dela, o terminal da Nelog, de R$ 1,3 bilhão, vai ligar o complexo portuário diretamente aos trilhos, e o Pecém projeta mais de R$ 185 bilhões em investimentos até 2030.
O cenário cearense reflete o que acontece no país. Segundo a ABDIB, os aportes em infraestrutura bateram recorde em 2025, com R$ 280 bilhões, e devem chegar a R$ 300 bilhões em 2026. Os leilões já garantem cerca de R$ 400 bilhões em obras contratadas até 2030, e o setor privado responde por 84% do total investido. Para as construtoras, a demanda está assegurada. O desafio agora é entregar.
Escassez de mão de obra
É aí que o setor encontra seu maior gargalo. Pesquisa da FGV IBRE aponta que 90% das construtoras têm dificuldade para contratar e reter profissionais, o maior índice entre todos os setores da economia. Já a CBIC mostra que 69,1% das empresas enfrentam falta de trabalhadores qualificados. A escassez pesa no bolso: o custo da mão de obra sobe cerca de 9% ao ano, quase três vezes mais que o dos materiais, e o INCC-M acumulou 6,01% em 12 meses. Para 79% das construtoras, a imprevisibilidade de custos é o principal problema, segundo a Deloitte.
"O ciclo de investimentos está contratado. O setor de construção pesada e infraestrutura precisa garantir que terá gente, dados e processos para entregar as obras com margem. A tecnologia é o que conecta essas três pontas. As empresas têm buscado reduzir a dependência de mão de obra por meio da revisão de processos, da industrialização e da digitalização", explica Rafael Bahr, Head de Produtos de Construção na Senior Sistemas.
Baixe o Panorama da Construção Pesada & Infraestrutura 2026
Tecnologia nas construtoras
Na prática, isso significa integrar informações que hoje costumam ficar espalhadas em planilhas e sistemas isolados em um sistema de ERP, uma plataforma capaz de gerenciar a obra inteira. Em projetos como o do túnel, o cronograma prevê etapas encadeadas, da pré-moldagem dos módulos de concreto e dragagem da trincheira no canal portuário à imersão e montagem dos elementos, o que significa que um atraso em uma frente repercute nas seguintes.
Em obras portuárias e viárias desse porte, com frentes simultâneas e dezenas de empresas envolvidas, conectar orçamento, planejamento, medições, suprimentos, equipamentos, folha de pagamento e financeiro em uma única plataforma permite comparar avanço físico e financeiro, antecipar desvios de prazo e acompanhar a margem de cada contrato em tempo real.
A gestão de pessoas também entra nessa equação. Acompanhar indicadores como rotatividade, absenteísmo, cobertura de funções críticas e custo de mão de obra frente ao orçado, obra a obra, ajuda a reter profissionais e a planejar capacitações antes que a falta de gente comprometa o cronograma. Já ferramentas de apontamento pelo celular e fluxos de trabalho digitais reduzem retrabalho e liberam as equipes para tarefas de maior valor. Do lado da cadeia de suprimentos, o monitoramento de prazos de entrega, da conformidade de terceiros e da exposição a reajustes oferece mais previsibilidade a um dos pontos mais sensíveis do setor.