greve

Porto do Pecém deixa de movimentar 208 mil toneladas em 8 dias

A greve dos caminhoneiros, que já passa de 10 dias, tem afetado a atividade no maior terminal portuário do Ceará, prejudicando o comércio exterior cearense

Desde a última segunda-feira, de acordo com a administradora do Porto do Pecém, toda a operação do terminal estava bloqueada por conta da paralisação dos caminhoneiros. Ontem, a via foi liberada ( Foto: THIAGO GADELHA )
00:00 · 31.05.2018 por Lígia Costa Repórter

Do terceiro ao décimo dia da greve dos caminhoneiros, ou seja, de 23 de maio até ontem (30), o Porto do Pecém, em São Gonçalo do Amarante, já contabiliza um prejuízo de 208 mil toneladas de mercadorias não movimentadas. Desde o início das paralisações nas rodovias brasileiras, o porto cearense mantinha operações parciais, com cargas estocadas no pátio de armazenagem (contêineres e placas de aço).

Entretanto, de segunda-feira (28) até ontem (30), quando o bloqueio foi desfeito, as operações foram "interrompidas totalmente pela impossibilidade da entrada e saída de mercadorias no Terminal", informou a Cearáportos. Ainda nesta semana, complementa a Cearáportos, dois navios do armador Aliança Navegação e Logística LTDA. Chegaram a ser cancelados, gerando um prejuízo de 14 mil toneladas não movimentadas. Entretanto, as mercadorias que já estavam estocadas foram enviadas aos destinos e os navios já atracados no Porto foram devidamente despachados.

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Produtos alimentícios, farmacêuticos, cosméticos, confecção, cereais, tecidos, frutas e químicos estão entre as principais cargas que deixaram de ser movimentadas. A reportagem procurou empresas aduaneiras para comentar sobre os impactos da greve dos caminhoneiros nas suas atividades de importação e exportação no Ceará, mas os empresários não quiseram se manifestar sobre o assunto.

Comércio exterior

De acordo com a gerente do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Karina Frota, o comércio exterior do Ceará e do Brasil, como um todo, está sofrendo um impacto tão negativo quanto o prejuízo enfrentado pelas empresas do País. Karina lembra ainda que bloqueios dos caminhoneiros no acesso ao Porto do Pecém, registrados nos últimos dias, também impactam não apenas a movimentação de cargas, como impedem a importação de insumos essenciais à fabricação de produtos.

"Algumas empresas que operam no mercado interno dependem de insumos que chegam por outro estado ou que vêm do exterior, como é o caso do setor de confecção", conta. Sem o insumo, a produção fica comprometida e, consequentemente, as entregas das mercadorias não são efetuadas. Outro problema que agrava a imagem do comércio exterior do Ceará lá fora.

"Quando uma venda é realizada no mercado internacional, é importantíssimo o cumprimento do prazo até porque a ideia é que a venda internacional seja contínua e não esporádica", observa a gerente do CIN.

'Aflição'

Ela conta que, cientes de que não poderão conseguir honrar o prazo determinado nos contratos para exportar os produtos, empresas estão recusando vendas. Ainda conforme Karina Frota, toda a situação do País causa "aflição" porque muitas indústrias estão com processo produtivo reduzido. E, as pequenas empresas, estão paralisadas.

Dentre os setores com maior participação na pauta de exportação do Ceará, estão calçados, frutas, rochas ornamentais ou mármores e granitos. "O impacto no Ceará é grande porque algumas empresas, inclusive, estão prestes a parar a produção já que, de maneira geral, dependem de insumos vindos do Sul e do Sudeste", endossa a presidente da Câmara Temática de Exportação e Investimento Estrangeiro, Roseane Medeiros.

O exportador de móveis, exemplifica, precisa de madeira extraída da Amazônia. "Toda atividade industrial é de transformação e não temos no Ceará fabricantes de insumos, a maioria vem do Rio Grande do Sul. Como sempre, quem vai mais sofrer são as pequenas empresas que não têm capital de giro pra sustentar duas, três semanas sem faturamento", disse.

Mucuripe liberado

Contatado, o Porto do Mucuripe, localizado em Fortaleza, informou à reportagem, em nota, que "continua realizando normalmente a sua operação importação de granéis líquidos e granéis sólidos". No entanto, a Companhia Docas do Ceará (CDC), que administra o terminal, admite prejuízo à importação, uma vez que "os navios de contêineres que não chegam à Capital, no entanto, apresentam atraso em função de não serem carregados no porto anterior, devido à greve que atinge o País".

"A Companhia Docas do Ceará aproveita a oportunidade para informar que não há bloqueios nos arredores do Porto de Fortaleza, seja na entrada do Porto ou no Parque de Tancagem das distribuidoras".

Opinião

'Paralisação deixa exportador sob embaraço'

Quem tem contrato de exportação está com carta de crédito estourada pelos atrasos causados pela paralisação, sem seguro, em uma situação embaraçosa porque deixa, involuntariamente, de cumprir os prazos acertados. Em maio, a balança comercial do Ceará deve vir mais deficitária. Tínhamos aço e outros produtos com o vetor exportação ascendente, mas a mobilização dos caminhoneiros e, agora, dos petroleiros, estão comprometendo a velocidade disso.

Todos perdem, até mesmo os grevistas, que tiveram uma greve democrática, legítima. O PIB não deve apresentar os índices naturais com os esforços que empresários vem fazendo para alcançar esse resultado. Esse momento atrapalhou.

As consequências não vão ser boas para os empregos, produção, inflação. Em momento nenhum podemos desmerecer o direito de reivindicar, mas devemos saber que há causas e consequências.

Agora, é preciso saber que a capacidade de pagamento do consumidor brasileiro permite esse aumento de preço dos combustíveis como vem sendo feito, que pode aumentar o processo inflacionário, uma vez que gasolina e óleo são insumos para a maioria dos produtos nossos.

Alcântara Macedo
Economista e consultor internacional

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