Xuxa e o voo que nos levou de volta à infância

Escrito por Fernanda Leite producaodiario@svm.com.br
30 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: Fernanda Leite é jornalista

Na última semana, o Brasil testemunhou algo que vai muito além de um show. A turnê O Último Voo reuniu memórias, afetos e sonhos que resistiram ao tempo.

Ela também revelou a muita gente a verdadeira dimensão da Xuxa. Vi jovens e adultos se surpreendendo ao descobrir como uma mulher de 63 anos reuniu mais de 50 mil pessoas em um estádio e esgotou apresentações por onde passa. Quem não viveu os anos 1980, 1990 e o início dos anos 2000 talvez nunca tivesse compreendido esse fenômeno.

Xuxa não foi apenas um sucesso da televisão brasileira. É uma das maiores artistas que este país já produziu. Levou sua carreira para além das nossas fronteiras, conquistou públicos de diferentes culturas e, mesmo décadas depois, continua sendo lembrada com carinho na Argentina, no Chile, na Espanha, nos Estados Unidos e em tantos outros lugares.

Em meio às imagens de estádios lotados, surgiram críticas. Houve quem debochasse das roupas, do público e até do dinheiro que cada pessoa escolheu gastar para estar ali. Como se a felicidade do outro precisasse de autorização.

Mas quem estava naquele show sabe: não era sobre nostalgia. Era sobre reencontro.

Fui uma dessas crianças que cresceram ao lado da Xuxa. Assisti aos seus shows em Fortaleza e, anos depois, já jornalista, realizei outro sonho: a foto que esperei a vida inteira.

Em 2018, quando ela desembarcou em Fortaleza, atendeu centenas de fãs, um por um, com carinho e respeito. Eu fui uma dessas pessoas. Assim que consegui a foto, enviei para minha mãe. Ela sorriu como se o sonho também fosse dela. E, de certa forma, era. Mães conhecem os sonhos dos filhos antes mesmo que eles aprendam a colocá-los em palavras.

Muita gente não sabe, mas a Xuxa ajudou a formar uma geração. Ensinou a amar os animais, cuidar da natureza, respeitar os pais, os idosos e as diferenças, dizer não às drogas e acreditar que os sonhos podem acontecer.

Sempre que a vida pesa, volto a ouvir Lua de Cristal. Aquela música ainda me lembra que tudo o que tiver de ser, será. E que os sonhos vêm para quem acreditar.

Era isso que tanta gente buscava naquele estádio. Alguns realizavam um sonho de infância. Outros, como eu, apenas queriam reviver uma felicidade que nunca deixou de existir.

Por isso, faço um convite: deixemos de lado as disputas políticas. Nem toda emoção precisa ser transformada em ideologia. Se aquele show não era para você, tudo bem. Mas deixe que quem esperou uma vida inteira por esse momento viva seu sonho em paz.

Às vezes, um show é apenas um show. Mas, às vezes, um show é um abraço na criança que ainda vive dentro de nós.

Obrigada, Xuxa, por ter feito tantas infâncias mais felizes. A minha foi uma delas. E isso, o tempo nunca será capaz de apagar.

Fernanda Leite é jornalista