Violência e “apagão” docente

São frequentes as queixas de educadores pela falta de autonomia (inclusive avaliativa), comprometimento da autoridade, insegurança permanente e assédio moral que rebaixam o processo educacional à mera distribuição formal de titulação

Escrito por Valdélio Muniz producaodiario@svm.com.br
10 de Agosto de 2026 - 06:00
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Legenda: Jornalista

É consenso em toda roda de conversa, discurso de governo e propaganda eleitoral que a educação deve ser prioridade em qualquer Estado ou nação que almeje se desenvolver. E a educação ainda é o meio de ascensão social que resta à grande parcela de cidadãos que não nasceu sob o signo da fortuna (promessa de herança financeira/patrimonial). A realidade dos profissionais da educação, contudo, não tem refletido o reconhecimento que a atividade merece.

Se, no passado, a valorização financeira era ainda mais aquém do que hoje, tinha-se ao menos um senso de respeito (admiração) coletivo aos professores mais adequado à sua relevância como formadores de todos os demais profissionais e, sobretudo, de cidadãos. Mas essa deferência tem se perdido no tempo.

São frequentes as queixas de educadores pela falta de autonomia (inclusive avaliativa), comprometimento da autoridade, insegurança permanente e assédio moral que rebaixam o processo educacional à mera distribuição formal de titulação. Substitui-se o analfabetismo formal pelo analfabetismo funcional à custa de adoecimento (físico e mental) dos profissionais. E friso: não se trata apenas de percepção pessoal ou de um círculo restrito de educadores (insatisfação pontual ou localizada).

O caso da professora de uma escola do Município de São José dos Campos (SP), vítima de alunos que puseram lâmina de vidro em seu copo com água, exemplifica a realidade constatada pela pesquisa do Centro do Professorado Paulista (CPP) que, após ouvir 1.144 educadores, apontou que 65% deles já sofreram algum tipo de agressão (verbal, psicológica, moral, institucional ou física) em sala de aula ou no ambiente escolar. E não é, insisto, realidade exclusiva do Estado de São Paulo.

Levantamento de 2024 da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a partir de entrevista com 280 mil professores e diretores de escola de 55 países, indicou que o Brasil surge no topo da violência contra educadores. Enquanto, na média global, 18% dos professores relataram ser intimidados verbalmente por alunos (estresse que, frequentemente, advém também dos pais), o percentual chegou a 47% no País. Não é à toa que estudos já alertam para o risco de um “apagão” docente (carência extrema de professores) nas próximas décadas. Se confirmado, será catastrófico.