Gilles Lipovetsky descreveu, em “O Império do Efêmero”, uma sociedade que perdeu o peso do passado e a promessa do futuro para viver na urgência do agora. A “moda consumada” seria, assim, um modo de existir em que tudo se torna provisório e descartável, inclusive os planos de longo prazo. E aí surge um paradoxo silencioso: quem vive apenas o presente pode acabar condenado a trabalhar para sempre.
Uma geração aprendeu a valorizar a renda imediata, o consumo instantâneo e a gratificação rápida. Trocar de emprego, de cidade e até de estilo de vida tornou-se parte da rotina. Essa leveza, que Lipovetsky identifica como característica da hipermodernidade, tem um custo pouco exibido nas redes sociais: a falta de uma construção patrimonial pensada para décadas.
O sistema previdenciário público não foi feito para sustentar sozinho pessoas que passaram a vida sem construir outras fontes de segurança financeira. Sem reserva, investimentos ou qualquer estrutura pensada para além do próximo salário, a aposentadoria deixa de ser um projeto e passa a ser uma incerteza. Nesse cenário, o trabalho pode se transformar em destino permanente.
O mais curioso é que essa lógica pode se disfarçar de liberdade. Viver o presente parece libertador, mas depender exclusivamente dele por toda a vida pode se tornar uma armadilha. A liberdade de hoje pode significar a obrigação de continuar trabalhando aos 70 ou 80 anos, não por escolha ou realização, mas por necessidade.
Pensar no futuro não significa abandonar o presente. Significa criar condições para que ele continue existindo com dignidade quando o corpo, a energia e o mercado de trabalho já não forem os mesmos. Planejar, nesse sentido, não é abrir mão de viver, mas ampliar as possibilidades de escolha.
Se Lipovetsky está certo e vivemos na era do efêmero, cabe a cada um decidir o quanto quer depender dessa lógica. O tempo passa, independentemente de estarmos preparados. E, quando chegar a hora de cobrar a conta, a diferença estará naquilo que foi construído enquanto ainda havia tempo para construir.
A pergunta, então, não é apenas quando você vai se aposentar, mas como pretende viver quando o trabalho deixar de ser a sua principal fonte de renda. Você terá uma reserva ou apenas mais um dia de trabalho pela frente?