A mais recente epidemia que assola o Brasil tem repercutido em todos os segmentos da vida, inclusive no trabalho: tratam-se das apostas online, já reconhecidas entre os três maiores problemas de saúde pública relativos a vícios, junto com álcool e drogas. A ludopatia (jogo patológico, não apenas recreativo, mas compulsivo) é considerada transtorno mental crônico pela Organização Mundial de Saúde-OMS.
Como problema que leva o indivíduo à perda do controle financeiro e pessoal, não apenas impacta na esfera do trabalho. Pode até partir dele: o principal apelo que convites publicitários apresentam a apostadores (presas fáceis pela vulnerabilidade social e econômica) é realizar sonhos com imediatidade nem de longe assegurada pela realidade precarizada das relações profissionais.
O fracasso sucessivo nas tentativas de obter ganhos prometidos quase como mágica agrava os problemas enfrentados pelos apostadores e compromete suas finanças pessoais e familiares e a harmonia dos lares, afeta a saúde mental, a capacidade de concentração, a produtividade no trabalho e a capacidade de discernimento do cidadão. Em muitos casos, as apostas são realizadas até mesmo durante o horário de trabalho, dada a facilidade de acesso.
O agravamento de frustrações profissionais e pessoais leva ao absenteísmo (ausência repetida e, por vezes, “injustificada” do trabalhador) e pode culminar com a dispensa por justa causa se verificadas situações de falta grave constantes da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), como desídia (desleixo habitual no cumprimento de tarefas), mau procedimento e abandono de emprego. Na maioria dos casos, de fato, tende-se a limitar a análise do problema aos seus efeitos, pouco importando identificar as causas.
Empresas privadas, embora constituídas com finalidade de lucro (assim como instituições públicas têm compromissos de eficiência e prestação adequada de serviços à população), também possuem função social estabelecida pela Constituição Federal. Neste sentido, podem contribuir decisivamente deixando de ignorar este grave problema de saúde pública e incluindo em seus programas internos voltados aos empregados ações de prevenção (conscientização) e apoio psicológico àqueles identificados c omo vítimas da ludopatia. A solução desta crise requer engajamento urgente de todos.