Em um mundo cada vez mais tecnológico, é fácil imaginar um futuro em que pais escolham características dos filhos como se estivessem montando um perfil em um aplicativo: cor dos olhos, do cabelo, altura, tipo físico. Um cenário que parece ficção científica, mas está perigosamente próximo da realidade e pode aprofundar ainda mais as desigualdades sociais.
Se o Brasil fosse um país mais sério, com políticas públicas responsáveis e fiscalização rigorosa, poderíamos nos beneficiar imensamente de técnicas como essa, restritas exclusivamente ao tratamento de doenças genéticas. Evitar o sofrimento, garantir qualidade de vida, dar às famílias a chance de ter filhos saudáveis. Tudo isso é louvável.
Ainda que, tecnicamente, não se trate de uma “manipulação genética” completa, o procedimento envolve, sim, a substituição de partes do DNA. Trocam-se mitocôndrias de uma mulher por outras saudáveis, criando embriões com material genético de três pessoas. Uma solução engenhosa, mas que exige cautela. O experimento pode abrir precedentes para avanços da medicina que o mundo ainda não está preparado para enfrentar e talvez nunca esteja.
A ciência salva vidas. Mas, sem ética, perde o rumo. O avanço é inevitável. Cabe à sociedade e aos legisladores definir limites claros para que o futuro não se torne um experimento perigoso. Devemos usar a inteligência humana com bom senso, afinal, estamos falando de seres humanos que podem ser gerados e de uma nova geração que será moldada por essas decisões.
Que a ciência continue evoluindo para, a cada dia, criar alternativas para a cura de doenças até hoje incuráveis. Mas, para isso, é essencial o olhar atento de toda a sociedade, para que possamos caminhar juntos na mesma direção e não criar ainda mais barreiras de desigualdades.
Daniel Diógenes é médico