Uma criança não enxerga o mundo da mesma forma que um fisioterapeuta. Para o profissional, cada atividade no tratamento tem seu objetivo bem definido na recuperação dos movimentos. Para a criança, no entanto, pode significar apenas alguns passos sobre algumas marcas no chão ou mover pesos. Essa diferença abre espaço para o debate sobre uma das dificuldades acerca da fisioterapia pediátrica: certa atividade ser adequada do ponto de vista clínico não basta, visto que ela também precisa ser compreensível e, sempre que possível, interessante para quem está realizando.
A fisioterapia pediátrica depende da participação da criança em atividades que muitas vezes precisam ser repetidas diversas vezes, tornando-se maçante em alguns casos. Uma criança pode compreender que precisa realizar um movimento, mas não necessariamente entender por que deveria querer repeti-lo tantas vezes. Por isso, é importante trabalhar a forma como tais exercícios são apresentados para o paciente, visando tornar o ambiente acolhedor e com estratégias capazes de despertar o interesse dos pequenos.
Essa preocupação levou a estudos sobre gamificação na reabilitação pediátrica, que apresenta resultados interessantes justamente nesse aspecto estudado. Uma revisão, focada em analisar diferentes testes em crianças e adolescentes, encontrou resultados positivos principalmente relacionados à adesão ao tratamento, além de possíveis benefícios em habilidades como equilíbrio, força e coordenação motora. A gamificação é um conceito com a proposta de inserir elementos normalmente encontrados em jogos, como desafios, recompensas e fases, em atividades diversas que não são originalmente jogos.
Dessa forma, uma tarefa considerada entediante e sem sentido para as crianças pode receber novos estímulos e, com isso, aumentar o retorno e o esforço do paciente. Justamente por fazer parte do imaginário infantil, o uso da figura dos super-heróis pode ser interessante dentro de tal contexto. Presentes em desenhos, filmes, quadrinhos e brinquedos, personagens como o Homem-Aranha, Batman, Hulk e Mulher-Maravilha podem ser figuras de inspiração para muitas crianças.
A identificação com esses personagens pode fazer com que a criança não apenas tenha um carinho pelo personagem, mas queira se imaginar como eles. Essa identificação pode ser aproveitada de diferentes maneiras durante o tratamento, de acordo com preferências. O fisioterapeuta pode transformar um circuito em uma missão, colocar obstáculos que a criança precisa superar ou utilizar um personagem para acompanhar cada etapa do exercício.
Uma criança que precisa treinar equilíbrio, por exemplo, pode imaginar que é o próprio Homem-Aranha! Fantasias, brinquedos e elementos de narração podem complementar essa experiência, principalmente quando são escolhidos de acordo com aquilo que desperta o interesse de cada paciente. A fisioterapia pediátrica não precisa deixar de ser tratamento para manter os pacientes próximos da infância. O exercício continua tendo seu objetivo, sua importância e sua seriedade, mas pode ser apresentado de uma forma que faça mais sentido para quem está realizando.