Há momentos em que a humanidade parece fazer um esforço deliberado para perder o juízo. Não se trata mais apenas de tecnologia, progresso ou modernidade. É outra coisa. É a dificuldade crescente de distinguir aquilo que é ferramenta daquilo que é vida, aquilo que é companhia daquilo que é apenas uma resposta programada numa tela.
A notícia de pessoas criando vínculos amorosos com inteligências artificiais seria apenas uma excentricidade se não revelasse uma tristeza bastante real. No Japão, uma mulher chegou a realizar uma cerimônia simbólica de casamento com uma persona criada no ChatGPT. Houve votos, aliança e cerimônia. O marido, evidentemente, continuava existindo apenas na tela.
O mais curioso é que a própria política começou a reagir ao absurdo. Nos Estados Unidos, pelo menos quatro estados, Idaho, Dakota do Norte, Utah e Tennessee, aprovaram medidas para impedir que sistemas de inteligência artificial sejam tratados juridicamente como parceiros matrimoniais. A preocupação faz parte de uma onda maior de regulamentação dos chamados chatbots de companhia.
É uma situação quase cômica. O homem inventou a máquina e agora precisa criar leis para explicar que a máquina não é gente.
Já houve quem declarasse amor a animais, personagens fictícios, objetos e até árvores. O ser humano sempre teve essa capacidade extraordinária de projetar sentimentos sobre aquilo que encontra pelo caminho. Mas a inteligência artificial acrescenta uma diferença inquietante. A árvore não responde. O cachorro não simula uma declaração apaixonada. A máquina responde, consola, elogia, concorda e aprende a reproduzir o tipo de conversa que prende seu interlocutor.
É aí que a brincadeira deixa de ser engraçada.
A tecnologia não inventou a solidão. Apenas descobriu que ela pode ser um excelente mercado. Em vez de enfrentar a dificuldade de conviver com pessoas imperfeitas, há quem prefira uma companhia que não envelhece, não reclama, não abandona e, sobretudo, pode ser ajustada às próprias necessidades.
Isso não é exatamente amor. É uma versão conveniente da intimidade.
O problema não é conversar com uma inteligência artificial. O problema começa quando o indivíduo passa a preferir a criatura programada ao mundo real, justamente porque o mundo real oferece aquilo que nenhuma máquina consegue garantir a contrariedade, a rejeição, a surpresa, o conflito e a liberdade.
Talvez a grande maluquice do nosso tempo não seja a máquina parecer humana. E sim o homem começar a achar que isso é suficiente.