A segurança do suprimento energético vem sempre em primeiro lugar, e o melhor termo para hoje não é transição, mas diversificação, da qual o Ceará é o maior exemplo. Nos últimos dias, Estados Unidos e Irã anunciaram um acordo para reabrir o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo do mundo. Enquanto o estreito esteve fechado, durante a guerra iniciada em fevereiro, o barril de Brent físico chegou a US$ 142 e sacudiu a economia global. Quando o petróleo dispara assim, o efeito chega rápido ao bolso de todos, em combustível mais caro, frete mais alto e inflação. A lição é clara, a segurança energética vem antes da transição.
Esse susto expôs uma fragilidade que o Brasil precisa encarar. Os países que melhor atravessam essas crises são os que mantêm estoques de segurança, reservas guardadas justamente para quando o mundo trava. Os Estados Unidos têm mais de 400 milhões de barris guardados, e a Agência Internacional de Energia recomenda o equivalente a noventa dias de consumo. O Brasil tem quase nada. Ou seja, segurança energética não é apenas produzir, é ter refino, logística e estoque quando falta.
Mesmo que o diesel acabasse amanhã, ainda precisaríamos do petróleo no pneu do carro, no asfalto, no plástico e no fertilizante. Diversificar não é trocar uma fonte por outra, mas somar fontes sem abrir mão do que faz o país andar.
E é justamente o Ceará o maior exemplo dessa diversificação. Protagonista das energias renováveis, com seus parques solares e eólicos, o estado avança também no petróleo e no refino, o que não é contradição, e sim maturidade. Como um dos futuros produtores da Margem Equatorial, tem diante de si uma oportunidade histórica de conquistar a sua independência energética com a Refinaria do Pecém.
Com o licenciamento ambiental em fase avançada, ela nasce sob o conceito de refino verde, movida por energia renovável, e vem atender a um mercado que ainda depende de combustível importado. Refinar aqui significa produzir, abastecer e gerar renda dentro do próprio estado, reduzindo a dependência externa que tanto nos torna vulneráveis.
A economia ainda depende do petróleo para manter suas cadeias produtivas funcionando, e garantir que a logística rode e a indústria opere é dever de qualquer governante. Por mais legítimo que seja o desejo de uma matriz mais limpa, a segurança precisa ser soberana. Repito: o desafio não é trocar uma fonte por outra de forma abrupta, mas diversificar! E o Ceará, ao unir sol, vento e petróleo, mostra como esse caminho se constrói.
Márcio Dutra é engenheiro