O caso de Isabelle Caracristi, jovem estudante de Direito de apenas 22 anos, comoveu o País. As circunstâncias de sua morte continuam sendo investigadas e não cabe a nós antecipar conclusões, estabelecer responsabilidades ou construir julgamentos a partir de informações que ainda estão sendo apuradas.
À medida que novos elementos do caso se tornam públicos, no entanto, surge uma reflexão que vai além dele: a relação que estabelecemos com o dinheiro também pode nos tornar vulneráveis.
Notícias recentes trouxeram informações sobre conversas envolvendo empréstimos, cobranças e supostos investimentos. Também veio a público a existência de uma ação cível anterior, na qual são feitas alegações envolvendo Isabelle, dinheiro e uma modalidade apresentada como jogo com expectativa de retorno financeiro.
É indispensável fazer uma ressalva: esses elementos não representam conclusões sobre a conduta de Isabelle. Há informações, versões e circunstâncias que ainda precisam ser esclarecidas pelas autoridades e, no caso da ação judicial, apreciadas dentro do devido processo. Tampouco é possível estabelecer qualquer relação de causa e efeito entre essas questões financeiras e sua morte.
O caso apenas nos conduz a uma discussão muito maior, que pertence a todos nós. Vivemos um tempo em que a promessa de dinheiro rápido está em toda parte. Bets, jogos online, operações apresentadas como investimentos e oportunidades de rentabilidade extraordinária cabem hoje na palma da mão. E a fronteira entre investir e apostar nem sempre é tão evidente para quem está do outro lado da tela.
De maneira geral, quando uma pessoa passa a recorrer a empréstimos, recursos de terceiros ou novas dívidas na expectativa de recuperar perdas anteriores, surge um sinal de alerta. Não me refiro aqui especificamente à Isabelle, mas a um comportamento financeiro que vemos se repetir em diferentes contextos, especialmente diante da expansão dos jogos e das promessas de ganhos rápidos.
Como advogada, tive a oportunidade de atuar na implantação da Lei Maria da Penha em Fortaleza. Ali compreendi que a dependência pode assumir muitas formas. Quando se fala em planejamento financeiro, acrescentaria outra palavra a essa reflexão: vulnerabilidade, porque uma pessoa pode trabalhar, ter renda e até investir e, ainda assim, não possuir autonomia financeira.
Autonomia não é apenas ganhar o próprio dinheiro, mas compreender onde ele está, quais riscos estamos assumindo, quais dívidas estamos contraindo e reconhecer quando uma decisão financeira começa a comprometer a liberdade.
Isso vale também para os relacionamentos. Não há nada de errado em uma família decidir que apenas um dos cônjuges será o provedor, o problema não é quem ganha o dinheiro, o problema é quando não existe conhecimento, participação e possibilidade de escolha, inclusive se manter em uma relação não saudável.
E existe uma pergunta que talvez todos devêssemos fazer diante de qualquer promessa de ganho: consigo explicar claramente de onde vem esse retorno e qual é o risco de perder meu dinheiro? Se a resposta for não, talvez não estejamos diante de um investimento que realmente compreendemos.
Planejamento financeiro não é somente escolher onde investir. É construir limites, reserva, proteção e consciência para evitar que uma dificuldade financeira desencadeie uma sucessão de decisões ainda mais arriscadas.
Dinheiro não deveria aprisionar ninguém, nem em um relacionamento, nem em uma dívida, nem na esperança de recuperar amanhã aquilo que se perdeu hoje. Autonomia financeira é, acima de tudo, ter condições de escolher. Educação financeira também é uma forma de proteção.
E aqui existe um último lembrete importante: amar também é construir uma relação em que permanecer seja uma escolha, e nunca a única alternativa economicamente possível para sobreviver.