Quando comer vira desafio no TEA

Escrito por Thaís de Oliveira producaodiario@svm.com.br
12 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: Thaís de Oliveira é nutricionista

A seletividade alimentar infantil é uma das queixas mais frequentes entre famílias. Longe de ser “fase” ou “manha”, trata-se de um comportamento alimentar complexo, especialmente prevalente em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Estudos apontam que entre 50% e 80% das crianças com TEA apresentam algum grau de seletividade alimentar, segundo publicações do Journal of Autism and Developmental Disorders e do Appetite. Essa seletividade pode se manifestar pela recusa de grupos alimentares inteiros, preferência por determinada textura, cor ou marca dos alimentos, além de forte resistência a experimentar novos alimentos.

Do ponto de vista científico, os fatores sensoriais têm papel central. Alterações no processamento sensorial — comuns no TEA — impactam diretamente a alimentação. A sensibilidade tátil e oral pode tornar determinadas texturas extremamente aversivas. Além disso, estudos da Academia Americana de Pediatria reforçam que aspectos comportamentais e ambientais também influenciam esse padrão alimentar. 

No entanto, reduzir a seletividade alimentar apenas a uma questão sensorial é simplificar demais o problema. Na prática clínica, observa-se que fatores emocionais, previsibilidade da rotina, experiências prévias negativas e até a dinâmica familiar exercem impacto significativo. A alimentação, para muitas dessas crianças, precisa ser previsível, segura e livre de pressão.
Por isso, abordagens terapêuticas vão além da introdução alimentar tradicional. Estratégias de exposição gradual, respeito ao tempo da criança, construção de vínculo com o alimento e participação ativa no preparo dos alimentos têm apresentado melhores resultados.

É fundamental que as famílias sejam acolhidas e orientadas, como propõem as terapias aplicadas na FAZ, compreendendo que cada criança possui seu próprio ritmo. O avanço não está apenas em “comer de tudo”, mas em ampliar o repertório alimentar com segurança, diminuindo o estresse à mesa e promovendo uma relação mais positiva com a comida.
Assim, a seletividade alimentar no autismo deve ser compreendida de forma ampla, integrando ciência, sensibilidade clínica e escuta ativa das famílias.

Thaís de Oliveira é nutricionista