Quando atacam uma mulher negra, atacam a democracia

Escrito por Maria Elaene Rodrigues Alves (Lalá) producaodiario@svm.com.br
29 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: Maria Elaene Rodrigues Alves (Lalá) é professora

As recentes ameaças dirigidas a uma parlamentar cearense não representam um episódio isolado. Elas revelam uma realidade persistente da sociedade brasileira: a violência política contra mulheres, especialmente mulheres negras, como estratégia de intimidação, silenciamento e preservação de estruturas históricas de poder.

Guardadas as diferenças entre os contextos, é impossível não lembrar de Marielle Franco. Seu assassinato marcou profundamente a democracia brasileira, ao mostrar que mulheres negras que ocupam espaços de poder e defendem direitos humanos podem se tornar alvo de violências que ultrapassam o plano individual. As ameaças que, hoje, recaem sobre outras mulheres demonstram que aquele alerta permanece atual.

A violência política de gênero não nasceu com as redes sociais nem pode ser explicada apenas pela polarização. Ela está enraizada na formação social brasileira, marcada pela escravidão, pelo patriarcado e pelo racismo. Durante séculos, o poder político foi tratado como privilégio masculino, branco e elitizado. Sempre que mulheres ocupam espaços de decisão, desafiam essa ordem.
Quando a mulher é negra, os ataques tornam-se ainda mais intensos. Racismo e misoginia atuam de forma articulada para desacreditar sua voz, questionar sua legitimidade e produzir medo. O objetivo não é atingir apenas uma representante eleita, mas intimidar todas aquelas que ousam disputar espaços historicamente reservados a poucos.

As plataformas digitais ampliam esse processo ao acelerar a circulação de discursos de ódio e campanhas de desinformação. A tecnologia, porém, apenas amplia desigualdades já presentes na sociedade.

Naturalizar esses ataques significa aceitar que o medo substitua o debate democrático. Defender a participação política das mulheres, especialmente das mulheres negras, indígenas, periféricas e LGBTQIA+, é defender a própria democracia.

Minha solidariedade a todas as mulheres que seguem resistindo. Quando uma mulher negra é silenciada, não é apenas uma voz que se cala: é a democracia que perde força.

Maria Elaene Rodrigues Alves (Lalá) é professora

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