O que a crise financeira de grandes redes varejistas tem a ver com uma usina solar? Mais do que parece.
Notícias recentes sobre a geração distribuída mostram que existem mais de R$ 10 bilhões em títulos de dívida em aberto ligados à GD solar no Brasil. O número revela não apenas o crescimento do setor, mas uma fragilidade que começa a ficar mais evidente.
Nos últimos anos, acompanhamos grandes grupos varejistas enfrentando dificuldades financeiras, reestruturações e recuperações judiciais. Cada caso tem suas particularidades, mas há um elemento comum: quando a geração de caixa não acompanha o endividamento, a alavancagem se torna um problema.
Na geração distribuída, a lógica não é muito diferente.
Muitas usinas foram financiadas com base em contratos de longo prazo com grandes consumidores ou em projeções comerciais sustentadas por comercializadoras de energia. Essas receitas projetadas ajudaram a suportar a dívida utilizada na construção dos ativos.
Mas o que acontece quando um grande cliente reduz operações, fecha lojas, renegocia contratos ou entra em recuperação judicial? Ou quando uma comercializadora que sustentava a projeção de ocupação de uma usina não consegue formar a carteira de clientes esperada?
A usina continua existindo. A dívida também. A receita, não necessariamente.
E esse é apenas um dos riscos. Atrasos de conexão, ausência de clientes, inadimplência, aumento de churn, maior competição por clientes e baixa performance operacional também pressionam o caixa.
Há ainda os furtos e roubos nas usinas. Além do custo de reposição de cabos e equipamentos, a paralisação reduz geração e faturamento. Enquanto isso, juros e amortizações continuam vencendo.
O setor precisa amadurecer sua análise de risco.
Não basta avaliar irradiação, equipamentos, MW instalados ou prazo dos contratos. É preciso analisar qualidade da receita, risco de contraparte, diversificação dos clientes, performance operacional, alavancagem e geração de caixa.
A GD continuará relevante para o setor elétrico brasileiro, mas entramos em um novo ciclo: menos orientado à expansão a qualquer custo e mais focado em eficiência, consolidação e recuperação de performance.
A pergunta deixou de ser apenas “quanto essa usina gera?”.
Agora é: “quanto dessa energia efetivamente se transforma em caixa — e quão resiliente é esse caixa?”