Quando a crise do varejo chega às usinas solares

Há ainda os furtos e roubos nas usinas. Além do custo de reposição de cabos e equipamentos, a paralisação reduz geração e faturamento

Escrito por Jonas Becker producaodiario@svm.com.br
16 de Setembro de 2026 - 06:00
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Legenda: Diretor de Energia da FIESP

O que a crise financeira de grandes redes varejistas tem a ver com uma usina solar? Mais do que parece.

Notícias recentes sobre a geração distribuída mostram que existem mais de R$ 10 bilhões em títulos de dívida em aberto ligados à GD solar no Brasil. O número revela não apenas o crescimento do setor, mas uma fragilidade que começa a ficar mais evidente.

Nos últimos anos, acompanhamos grandes grupos varejistas enfrentando dificuldades financeiras, reestruturações e recuperações judiciais. Cada caso tem suas particularidades, mas há um elemento comum: quando a geração de caixa não acompanha o endividamento, a alavancagem se torna um problema.

Na geração distribuída, a lógica não é muito diferente.

Muitas usinas foram financiadas com base em contratos de longo prazo com grandes consumidores ou em projeções comerciais sustentadas por comercializadoras de energia. Essas receitas projetadas ajudaram a suportar a dívida utilizada na construção dos ativos.

Mas o que acontece quando um grande cliente reduz operações, fecha lojas, renegocia contratos ou entra em recuperação judicial? Ou quando uma comercializadora que sustentava a projeção de ocupação de uma usina não consegue formar a carteira de clientes esperada?

A usina continua existindo. A dívida também. A receita, não necessariamente.

E esse é apenas um dos riscos. Atrasos de conexão, ausência de clientes, inadimplência, aumento de churn, maior competição por clientes e baixa performance operacional também pressionam o caixa.

Há ainda os furtos e roubos nas usinas. Além do custo de reposição de cabos e equipamentos, a paralisação reduz geração e faturamento. Enquanto isso, juros e amortizações continuam vencendo.

O setor precisa amadurecer sua análise de risco.

Não basta avaliar irradiação, equipamentos, MW instalados ou prazo dos contratos. É preciso analisar qualidade da receita, risco de contraparte, diversificação dos clientes, performance operacional, alavancagem e geração de caixa.

A GD continuará relevante para o setor elétrico brasileiro, mas entramos em um novo ciclo: menos orientado à expansão a qualquer custo e mais focado em eficiência, consolidação e recuperação de performance.

A pergunta deixou de ser apenas “quanto essa usina gera?”.
Agora é: “quanto dessa energia efetivamente se transforma em caixa — e quão resiliente é esse caixa?”

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