Quando a ciência precisa falar mais alto

O trabalho pericial tem como ponto de partida a ciência

Escrito por Rômulo Lima producaodiario@svm.com.br
25 de Outubro de 2026 - 06:00
capa da noticia
Legenda: Presidente do Sindicato dos Peritos Oficiais de Natureza Criminal do Ceará (Sindiperitos-CE)

Em investigações que envolvem mortes, crimes violentos e ocorrências de grande repercussão, a sociedade naturalmente busca respostas. Familiares esperam esclarecimentos e a opinião pública acompanha cada nova informação. Nesse cenário, a perícia criminal exerce uma responsabilidade fundamental: transformar vestígios em informação científica capaz de contribuir para a reconstrução dos fatos.

O trabalho pericial tem como ponto de partida a ciência. O perito não deve partir de uma conclusão para depois buscar elementos que a confirmem. O caminho é inverso: são os vestígios que orientam os exames e permitem, dentro dos limites da técnica, construir conclusões.

É justamente aí que está a importância da imparcialidade da perícia forense. Diante de versões conflitantes, hipóteses antecipadas ou interpretações disseminadas nas redes sociais, devem prevalecer os elementos que podem ser identificados, preservados, examinados e demonstrados tecnicamente.

Em casos de complexa análise pericial e com grande repercussão, essa responsabilidade se torna ainda maior. A velocidade das redes sociais cria uma expectativa por respostas imediatas, mas a ciência tem outro ritmo. Isso não significa falta de agilidade ou de compromisso. Significa responsabilidade.

Uma conclusão precipitada ou tecnicamente frágil pode comprometer uma investigação e produzir consequências difíceis de reparar. Por isso, cada vestígio precisa ser corretamente coletado, preservado e analisado, seguindo procedimentos que garantam a confiabilidade dos resultados.

A perícia criminal tem o papel de analisar os elementos materiais disponíveis e apresentar aquilo que a ciência permite afirmar. Se um vestígio reforça determinada hipótese, isso deve ser demonstrado. Se a enfraquece, também. E, quando os exames não permitem uma conclusão, reconhecer esse limite também faz parte do rigor científico.

Quando todos têm versões, a perícia busca vestígios. Quando todos procuram respostas, a ciência procura evidências. E, quando a vítima já não pode falar, cabe à perícia ajudar a fazer com que os vestígios revelem, com rigor e independência, aquilo que aconteceu.

Edição do Dia