Precisamos de espaços onde a IA não entre

Na educação, essa diferença é decisiva. Quando um estudante usa IA para esclarecer dúvidas, ela pode ajudar

Escrito por Carlos Diego C. P. producaodiario@svm.com.br
18 de Outubro de 2026 - 06:00
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Legenda: Empreendedor

Trabalho com tecnologia há mais de 20 anos. Sou professor e desenvolvo soluções com inteligência artificial. Conheço seu potencial. Mas defendo algo que pode parecer contraditório: precisamos preservar espaços onde a IA não entre. Nunca foi tão fácil obter respostas. Em segundos, sistemas escrevem textos, resolvem problemas e organizam argumentos. Só que aprender não é apenas chegar à resposta correta. É compreender o caminho até ela. 

Na educação, essa diferença é decisiva. Quando um estudante usa IA para esclarecer dúvidas, ela pode ajudar. Mas, se delega todo o raciocínio, o que realmente aprende? Errar, testar hipóteses e sustentar uma ideia são partes essenciais da formação.

Um estudo publicado em 2025 na revista científica PNAS, com quase mil estudantes, encontrou um resultado revelador: alunos que usaram uma IA que fornecia respostas prontas tiveram desempenho 17% inferior em uma avaliação posterior sem a ferramenta, em comparação com aqueles que estudaram sem IA. A mesma pesquisa mostrou que uma IA desenhada para orientar o raciocínio evitou esse prejuízo. O problema, portanto, não é simplesmente usar tecnologia, mas como ela participa da aprendizagem.

Por isso, defendo atividades deliberadamente livres de IA: debates, exercícios e avaliações em que os estudantes precisem formular argumentos e resolver problemas por conta própria. Não é rejeição ao progresso. É uma escolha pedagógica. Nas empresas, vale a mesma cautela. Automatizar tarefas repetitivas pode liberar tempo para decisões importantes. Mas acelerar a produção de relatórios não garante análises melhores. E confiar em respostas convincentes sem verificar seus fundamentos pode multiplicar erros.

Também no cotidiano precisamos distinguir conveniência de autonomia. Se recorremos à IA antes mesmo de tentar organizar uma ideia, corremos o risco de deixar de exercitar nosso próprio julgamento. Não proponho usar menos IA por princípio. Proponho usá-la com critério: saber quando ela amplia nossas capacidades e quando apenas substitui o esforço necessário para desenvolvê-las. O futuro não depende só de máquinas mais inteligentes, mas de pessoas capazes de questioná-las.

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