Entrem na escola do futuro pelo “mundo do acesso”. Ali, sob o verniz da modernidade, tudo parece funcionar, mas funciona pelo avesso. O sol ilumina as conexões digitais, enquanto a sala dos professores permanece às escuras, esquecida no penhoar do abandono. A escola se enche de telas, plataformas e “inteligências”, mas corre o risco de esvaziar justamente aquilo que não pode ser digitalizado: a presença do professor em sala de aula.
A tecnologia, por si só, não carrega a culpa. Na verdade, sequer alcançamos o horizonte ideal do acesso pleno em todas as suas dimensões. A contradição está em outro lugar: a escola inteira parece magnética, mas a carreira docente, nem tanto.
Os números do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2026 colocam essa percepção em números. Entre os ingressantes em licenciaturas que fizeram o Enem, a parcela entre os 20% de melhor desempenho caiu de 22,7% em 2020 para 14% em 2023, com uma discreta recuperação para 14,7% em 2024. Em outras palavras: de cada 100 estudantes que chegam às licenciaturas, apenas 15 estão hoje entre os melhores desempenhos do Enem.
A comparação com outros cursos torna o contraste ainda mais evidente. Em 2024, esse grupo representava 32,6% dos ingressantes em Direito e 81,2% em Medicina, contra 14,7% nas licenciaturas. Não é uma questão de capacidade, mas de escolha: quando as portas se multiplicam, a docência parece ser uma das que menos conseguem atrair os estudantes de melhor desempenho. O dado aponta para questão: quando um estudante com bom desempenho encontra diante de si diferentes possibilidades de escolha, a licenciatura está conseguindo atrair uma parcela menor desses estudantes.
Enfim, o problema não é convencer a sociedade de que professor é importante, mas oferecer uma profissão que, de fato, pareça valer a escolha. Afinal, de que adianta celebrar o professor no discurso, enquanto tornamos a docência pouco atraente na prática?