“Parei de usar fio dental porque minha gengiva sangra.” Essa é uma das frases que mais escuto dos meus pacientes. Toda vez que a ouço, penso na quantidade de pessoas que fazem exatamente o mesmo: percebem um sangramento, acreditam que o fio dental está machucando a gengiva e deixam de usá-lo.
No entanto, uma gengiva saudável não costuma sangrar durante a escovação ou o uso do fio dental. Quando isso acontece, o mais comum é que exista uma inflamação provocada pelo acúmulo de placa bacteriana na região entre os dentes, onde a escova não consegue alcançar.
Imagine uma ferida na pele. Se ela está inflamada, um toque pode provocar sangramento. Com a gengiva acontece algo semelhante. O fio dental não é o vilão, ele revela que existe algo que precisa de atenção.
Aliás, se você nunca teve o hábito de usar fio dental diariamente, é possível que a gengiva sangre nos primeiros dias. Na maioria dos casos, esse sangramento tende a desaparecer à medida que a placa bacteriana é removida e a inflamação regride. Ou seja, persistir no uso correto do fio dental costuma fazer parte da solução.
É claro que existem situações específicas em que o sangramento pode ter outras causas e merecem uma avaliação profissional.
Outra dúvida que escuto com frequência é: “Qual é o melhor fio dental?”. O melhor é aquele que cabe no seu bolso e que você consegue usar todos os dias. Existem diferentes tipos, mas usá-lo diariamente e da maneira correta é muito mais importante do que a marca.
Antes da escovação, o fio deve ser introduzido entre os dentes e abraçar cada dente fazendo um “C”, deslizando suavemente pela lateral do dente até alcançar a região logo abaixo da gengiva, onde a escova não chega. Não precisa de força, movimentos bruscos podem machucar a região e dar a falsa impressão de que o fio é o responsável pelo sangramento.
A saúde bucal ainda convive com muitos mitos, e esse é um dos mais comuns. Talvez esteja na hora de mudarmos a pergunta. Em vez de “devo parar de usar fio dental porque minha gengiva sangra?”, a questão deveria ser: “por que minha gengiva está sangrando?”.
A resposta para essa pergunta pode fazer toda a diferença entre tratar um problema logo no início ou descobrir, mais tarde, que ele era muito maior do que parecia.
Larissa Pacheco é cirurgiã-dentista