Planos de saúde: o reajuste é só a superfície da crise

Escrito por Álvaro Madeira Neto producaodiario@svm.com.br
08 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: Álvaro Madeira Neto é médico

O reajuste dos planos de saúde virou manchete, mas ilumina só parte do problema. O teto de 5,11% definido pela ANS para planos individuais e familiares traz alívio concreto, porém restrito: alcança 7,7 milhões de pessoas, 14,5% dos beneficiários médico-hospitalares. A tensão maior está nos contratos coletivos, sobretudo nos de pequenas empresas, onde a promessa de negociação convive com assimetria de informação e poder.

O problema não é apenas o índice; é a forma como risco, cuidado e responsabilidade são distribuídos. Nos coletivos, o reajuste médio foi de 9,9% nos dois primeiros meses de 2026, menor que em anos recentes, mas ainda acima da inflação. Em 2025, contratos com menos de 30 vidas tiveram reajuste médio de 14,24%, contra 9,62% nos maiores. Não é detalhe atuarial, é vulnerabilidade convertida em preço.

A saúde suplementar tornou-se peça central de acesso para famílias, empresas e idosos, mas segue organizada por incentivos que premiam volume, fragmentação e conflito. Discute-se mensalidade com obsessão, enquanto a pergunta essencial fica em segundo plano: que cuidado é entregue, com qual qualidade, a que custo e com que resultado? Quando essa resposta não aparece, a disputa migra para o Judiciário. Ela também nasce de negativas mal explicadas, contratos opacos, mediação tardia, tecnologia pouco compreensível e baixa coordenação clínica. O juiz entra porque a governança chegou depois do dano.

Seria simplista reduzir a crise a vilões. Há envelhecimento, tecnologia cara, desperdício, remuneração por procedimento e pouca corresponsabilidade pelos desfechos. Mas isso não justifica um sistema que calcula sinistros melhor do que organiza cuidado.

O novo pacto deve combinar transparência contratual, coordenação clínica e regulação capaz de resolver conflitos antes da sentença. Isso exige contratos inteligíveis, indicadores públicos, critérios claros para tecnologias, proteção a idosos e pacientes crônicos, e remuneração por prevenção e resultado.

A pergunta decisiva não é quanto o plano pode aumentar. É que sistema a sociedade aceita financiar: um mercado que empurra conflitos ao Judiciário ou uma rede capaz de cuidar, prestar contas e dividir responsabilidades. Sem essa mudança, cada reajuste será pausa entre duas perdas: bolso e confiança.

 Álvaro Madeira Neto é médico