A manchete chama atenção: “Inteligência artificial conquista medalha de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática”. No entanto, mais do que celebrar o feito em si, essa notícia nos convida a refletir. A comparação direta entre máquinas e jovens talentos humanos, por si só, não me entusiasma. Não se trata de uma disputa entre nós e a inteligência artificial, afinal, somos justamente os criadores desse avanço. O verdadeiro risco não está em reconhecer o desempenho das máquinas, mas em supor que, por causa disso, o pensamento crítico se tornou obsoleto. Em vez de nos rendermos ao fascínio automático, é tempo de aprofundar nossas perguntas e reafirmar nossas responsabilidades.
Embora ainda existam descrentes, já superamos a era da informação! Hoje, o que nos distingue não é mais a velocidade das respostas, mas a qualidade delas. Diante disso, é essencial voltarmos nossa atenção para a construção de perguntas mais bem elaboradas e aprofundadas em criticidade, de modo a qualificar verdadeiramente as respostas.
Não há antagonismo entre a inteligência artificial e a inteligência humana. O que existe, de fato, é uma disputa silenciosa entre diferentes formas de consciência. O risco não é a IA acertar a resposta, e sim esquecermos que o gabarito não é o destino. Como educadores, nossa atuação, em muito pouco tempo, estará centrada na dimensão da criticidade, como diria Juvenal Arduini. Em sua perspectiva, a criticidade é uma atitude essencialmente humana. Por isso, toda informação deve passar por quatro etapas: observar com atenção, interpretar o que está implícito, avaliar o momento de agir e aplicar com responsabilidade ética e social.
O que revela premiar uma IA enquanto milhões de crianças ainda não sabem somar? Isso não escancara o abismo entre o avanço tecnológico e o fracasso persistente na garantia do direito à aprendizagem? A criticidade não se limita a validar acertos; ela também questiona, recusa superficialidades e provoca rupturas. É uma forma de reflexão ativa, não um gesto automático de aprovação. Se a era da informação nos inundou de dados, a era da inteligência nos impõe o desafio do discernimento.
Davi Marreiro é consultor pedagógico