Olho seco: quando o desconforto nos olhos revela um problema que merece atenção

Escrito por Monike Vieira producaodiario@svm.com.br
24 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: Monike Vieira é médica

Vivemos em uma época em que passar horas diante de uma tela se tornou parte da rotina. Trabalhamos no computador, resolvemos compromissos pelo celular e, nos momentos de descanso, muitas vezes continuamos conectados. Em meio a esse novo comportamento, um problema ocular tem se tornado cada vez mais presente: a síndrome do olho seco.

Durante o Julho Turquesa, mês dedicado à conscientização sobre o olho seco, é importante chamar atenção para uma condição que ainda costuma ser subestimada. Muitos pacientes convivem por meses, ou até anos, com ardência, vermelhidão, sensação de areia nos olhos e visão que oscila ao longo do dia acreditando que esses sintomas são apenas consequência do cansaço.

A realidade é diferente. O olho seco é uma doença crônica e multifatorial que envolve alterações no filme lacrimal e na superfície ocular. No Brasil, estudos já apontaram uma frequência expressiva da condição na população, com estimativas que variam de aproximadamente 13% a 24%, dependendo do grupo e dos critérios avaliados. Pesquisas nacionais também têm demonstrado maior ocorrência em ambientes urbanos e entre mulheres.

Esses dados precisam ser observados com atenção porque estamos falando de uma doença capaz de interferir diretamente na qualidade de vida. Ler, dirigir, trabalhar no computador ou simplesmente permanecer em um ambiente climatizado pode se tornar desconfortável para quem apresenta um quadro mais intenso.
Um ponto que sempre faço questão de explicar aos pacientes é que ter olho seco não significa, necessariamente, produzir pouca lágrima. Em muitos casos, existe lágrima, mas sua composição não é adequada ou ela evapora rapidamente. Por isso, algumas pessoas apresentam, inclusive, lacrimejamento excessivo e não imaginam que também podem estar diante de um quadro de olho seco.

A disfunção das glândulas de Meibômio está entre as alterações frequentemente associadas à síndrome. Localizadas nas pálpebras, essas glândulas produzem uma importante camada oleosa da lágrima, responsável por reduzir sua evaporação. Quando não funcionam corretamente, a estabilidade do filme lacrimal pode ser comprometida.

Há ainda outros fatores envolvidos, como envelhecimento, alterações hormonais, doenças autoimunes, determinados medicamentos e histórico de procedimentos oculares. O uso intenso de dispositivos eletrônicos também merece destaque. Quando estamos concentrados diante de uma tela, piscamos menos e, muitas vezes, de forma incompleta. Esse hábito favorece a evaporação da lágrima e pode piorar os sintomas.

A boa notícia é que a oftalmologia avançou muito na compreensão da superfície ocular. Atualmente, conseguimos investigar com maior precisão as características da lágrima e o funcionamento das glândulas das pálpebras, permitindo tratamentos mais direcionados para cada paciente.

Não existe uma única solução que funcione para todos. O tratamento pode envolver lágrimas artificiais específicas, cuidados com as pálpebras, controle da inflamação e terapias voltadas para as glândulas. A indicação depende do tipo e da gravidade da doença.

O Julho Turquesa traz uma mensagem necessária: não devemos normalizar o desconforto ocular persistente. Sentir os olhos constantemente secos, ardendo ou irritados não precisa fazer parte da rotina. Mais do que aliviar sintomas, diagnosticar e tratar corretamente o olho seco é uma forma de proteger a superfície ocular, preservar a qualidade da visão e devolver conforto às atividades do dia a dia.
Nossos olhos também sentem os impactos da forma como vivemos. E aprender a reconhecer esses sinais é o primeiro passo para cuidar melhor da visão.

Monike Vieira é médica