Esse movimento, por um lado, reflete avanços importantes, como maior acesso à educação, à informação e ao planejamento familiar. A maternidade deixou de ser obrigação e passou a ser uma escolha. Por outro lado, o adiamento da gestação, principalmente após os 35 anos, traz desafios biológicos. A fertilidade feminina reduz-se naturalmente com a idade, e as chances de uma gestação espontânea caem significativamente após esse período.
Podemos dizer que, após os 35, tem início o declínio da fertilidade, e, depois dos 40, o processo de diminuição dos óvulos se acelera. Logicamente, alguém pode ter visto por aí ou conhecer uma pessoa que engravidou naturalmente e teve uma gestação tranquila depois dos 40, mas, infelizmente, essa não é a regra.
Cada vez mais, vemos gestações após os 40 anos — como comprovam também os dados do IBGE, que mostram que a maternidade após quatro décadas de vida aumentou 60% entre 2010 e 2022. Engravidar nesse período requer uma série de cuidados redobrados, incluindo boa alimentação e saúde física e mental em dia.
Embora a medicina reprodutiva tenha evoluído, ela não é garantia de sucesso nem acessível a todos. Por isso, é necessário que as mulheres tenham acesso a informações claras e responsáveis sobre os limites da fertilidade. Planejar a maternidade deve incluir não só questões profissionais e afetivas, mas também uma consciência sobre o tempo biológico.
A queda na taxa de fecundidade e o adiamento dos filhos são fenômenos legítimos, mas que precisam ser acompanhados de políticas públicas que orientem e apoiem as escolhas reprodutivas com base em informação e saúde. Afinal, liberdade também significa poder escolher o momento certo — e possível — de ser mãe.
Lilian Serio é médica