O mercado tinha começado a respirar. Depois do acordo de paz entre Estados Unidos e Irã, o frete marítimo da Ásia para o Brasil, que no mês passado bateu US$ 8.000 a US$ 8.500 por contêiner, vinha cedendo, chegou a US$ 5.000. Era mais que alívio de custo: era previsibilidade voltando.
Durou pouco. Com a reescalada do conflito em julho, armadores suspenderam embarques para reavaliar tarifas. O que passa despercebido de quem lê a guerra pelo noticiário: o problema do importador brasileiro não é frete caro. É frete sem preço.
Na minha operação, a cotação venceu e não foi renovada. Sem número, não há decisão de compra, nem prazo para prometer ao cliente. Estamos segurando pedido — resposta que a maioria dos importadores dá esta semana, ainda que poucos digam em voz alta.
O contêiner de Shanghai não passa pelo Estreito de Ormuz, mas sente: petróleo caro encarece o combustível, frota desviada some da oferta global, risco geopolítico eleva o seguro. O estreito não precisa estar na rota para estar na fatura.
Um sinal: Washington chegou a propor cobrar 20% do valor da carga de navios que cruzassem o estreito sob escolta militar americana. Se pega, segurança marítima vira serviço vendido — mudança estrutural.
Há um efeito que quase ninguém calcula. No CIF, o frete integra o valor aduaneiro — base de cinco tributos: II, IPI, PIS, COFINS e ICMS. Cada US$ 1.000 a mais de frete encarece o imposto, em cascata, cinco vezes. Em dez contêineres, US$ 3.000 de variação por unidade viram US$ 30.000 no valor aduaneiro. Embarcar virou planejamento tributário.
Julho e agosto são alta temporada global, com o varejo antecipando Black Friday e Natal. A guerra chegou num mercado já apertado e tirou a capacidade de projetar.
O empresário aguenta custo alto. O que não administra é não saber qual é o custo.
Duas decisões: se sua formação de preço não tem faixa de tolerância para o frete, é aposta, não preço. Se está segurando pedido, defina o gatilho — qual patamar, qual data faz embarcar mesmo sem cenário ideal. Quem não define antes embarca no pior momento e paga duas vezes.
O piso do frete subiu e não volta. Seguro de risco e combustível já entraram na tarifa. Quem esperar o normal voltar vai decidir tarde. O normal mudou.