Diferentemente dos furacões que assolam regiões como o Caribe e os Estados Unidos, o Brasil vem sido varrido por um “furacão” de diversa natureza. Preso desde março do corrente ano no complexo penitenciário da Papuda, no Distrito Federal, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro já causou – e poderá ampliá-lo ainda mais, a julgar pelas denúncias e investigações que o cercam – um estrago político e econômico de dimensões descomunais ao país. Suas relações perigosas com deputados, senadores e até ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) foram descobertas pela Polícia Federal em operações como a Compliance Zero, por exemplo, que apura suspeitas de fraude na gestão do Banco Master, de sua propriedade e ora em liquidação pelo Banco Central.
Em novembro do ano passado, o ex-banqueiro já havia sido preso na primeira fase da operação, sendo solto logo depois, mas fazendo uso de uma tornozeleira eletrônica, sendo novamente preso no dia 4 de março próximo passado, por ordem do ministro André Mendonça, do STF, por atrapalhar as investigações sobre o Master.
Desde então, ele continua em evidência e, a cada dia que passa, surgem as mais escabrosas ligações desse indivíduo com senadores e outras figuras da política nacional, que vão desde pagamentos de mimos como viagens e caríssimos almoços no exterior, passando por orgias sexuais, ameaças, lavagem de dinheiro e até o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, entre outros.
Além disso, mais recentemente, surgiram casos como a nova operação da Polícia Federal que investiga mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e o ex-controlador do Banco Master. Outros diálogos incluídos no relatório das averiguações também apontam como envolvido o ministro André Mendonça. Na semana passada, o Brasil parou para assistir à sessão extraordinária do Supremo, presidida pelo ministro Edson Fachin, que analisaria a situação de Moraes e, após oito longas horas de diálogos incisivos e agressivos entre os membros da Suprema Corte, terminou sem definir a junção dos processos de Moraes e Mendonça.
O ministro Gilmar Mendes, decano do STF, apresentou uma questão de ordem na qual pediu que ambas as petições fossem analisadas em conjunto. O placar da votação terminou em 4 votos a 4, com ministros divergindo no principal ponto suscitado por Gilmar. E, embora tenha votado, o ministro Flávio Dino pediu vista dos autos após seu voto, tendo ficado finalmente o placar em 4 a 3.
Dino tem agora 90 dias, pelas regras da Corte, contados da publicação da ata de julgamento, para devolver os autos e retomar a análise sobre a junção das petições. Durante a sessão histórica, a ministra Carmen Lúcia, expressando o sentimento da sociedade brasileira, declarou sua “tristeza e vergonha” pela crise que contamina a Suprema Corte. De fato, nem o STF escapou dos trágicos efeitos do “furacão” Vorcaro, que segue a abalar as estruturas da República. Uma lástima!