O acordo que os sócios preferem deixar para depois

Nas empresas familiares, uma discordância sobre o negócio pode ser recebida como uma ofensa pessoal, e o almoço de domingo acaba se tornando uma reunião de sócios que ninguém pretendia realizar

Escrito por Bruno Coelho producaodiario@svm.com.br
08 de Novembro de 2026 - 06:00
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Legenda: Advogado

No início de uma sociedade, os sócios costumam viver uma “lua de mel”, e o entusiasmo com o negócio deixa pouco espaço para discutir o que fazer quando surgirem as primeiras divergências. Essa conversa tende a parecer desnecessária diante da confiança entre eles e da urgência de fazer a empresa crescer, ficando para depois justamente as regras que vão orientar essa relação quando o entusiasmo inicial já não for suficiente para manter todos de acordo.

Essa situação se repete com uma frequência que lembra as exibições de Lagoa Azul na Sessão da Tarde. Apesar da brincadeira, é curioso observar como o interesse em organizar a sociedade pode ser recebido como sinal de desconfiança, como se propor regras significasse duvidar de que o outro cumprirá a palavra.

O problema é que nem sempre os sócios entenderam a mesma coisa quando fizeram aquela combinação, e essas diferenças ficam claras quando alguém pretende sair, discorda da divisão dos lucros ou considera que está trabalhando mais que os demais. Nas empresas familiares, uma discordância sobre o negócio pode ser recebida como uma ofensa pessoal, e o almoço de domingo acaba se tornando uma reunião de sócios que ninguém pretendia realizar.

É dessas situações que um acordo de sócios precisa tratar, definindo responsabilidades, critérios para as decisões e a distribuição de resultados, além das condições de saída e sucessão. Para isso, os sócios precisam conversar sobre o que esperam da empresa e uns dos outros, porque assinar um documento genérico não resolve aquilo que ninguém se dispôs a discutir.

Não vejo sentido em esperar um conflito para ter essa conversa, quando qualquer proposta já pode ser recebida como uma tentativa de levar vantagem. Se existe confiança para investir dinheiro, trabalho e anos de vida num negócio, também deveria existir espaço para combinar suas regras, inclusive para o dia em que os sócios não quiserem mais seguir juntos.

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