Mais de meio milhão de brasileiros se afastaram do trabalho em 2025 por causa da saúde mental, o maior número numa década. Esse dado, que não para de crescer, saiu do consultório e foi parar no colo do empresário, e a peça que liga as duas coisas atende por NR-1. Vale entender o que ela é, e o que ela não é.
A NR-1 é a regra que organiza a segurança e a saúde no trabalho no Brasil, e existe desde 1978. A novidade veio em 2024, quando ela passou a incluir os riscos psicossociais, ou seja, aquilo que, na forma como o trabalho é organizado, adoece pessoas saudáveis, como metas impossíveis, jornada sem fim, cobrança por humilhação e assédio tolerado. Cuidar da saúde mental da equipe, que antes soava como gentileza, passou a ser obrigação, com fiscalização ativa desde maio de 2026.
A norma, porém, não é o que muito boato vendeu. Para começar, não é nova, e quem a trata como invenção de ontem ignora quase cinco décadas de história. Também não autoriza a empresa a vasculhar a cabeça de cada empregado, uma vez que o que ela cobra é a atenção ao ambiente de trabalho, e não um raio-x da mente de ninguém. E, ao contrário do que se noticiou, não foi suspensa, pois a liminar conquistada pela Fiesp livrou da multa apenas um grupo de empresas, mantendo de pé, para todas, o dever de cuidar.
Para quem dá emprego, o recado é direto. O risco de ignorar isso não é a multa, que costuma ser a menor das contas, mas o processo trabalhista de quem adoeceu, a perda de gente boa que não aguenta o ambiente e o custo previdenciário que se arrasta por anos quando se reconhece que o trabalho fez mal a alguém. Sai muito mais caro fingir que o problema não existe do que organizar a casa a tempo.
No fundo, a NR-1 não cobra um documento bonito na gaveta, mas a coerência entre o papel, a prática e a prova. A empresa não será avaliada pelo que arquiva, e sim pelo que de fato fez, registrou e consegue mostrar. Cuidar das pessoas deixou de ser conselho e virou método, e quem começar primeiro larga na frente.
Alexandre Rolim é advogado