Não coloque todas as cargas num mesmo navio

Escrito por Thiago Abreu producaodiario@svm.com.br
30 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: Thiago Abreu é administrador

O ditado sobre não colocar tudo em uma única cesta nunca fez tanto sentido para o Ceará. O estado descobre, da pior forma, o preço de ter historicamente concentrado suas exportações num único destino: os Estados Unidos. Claro que nessa balança existe toda uma combinação de fatores históricos, geográficos, produtivos e até estratégicos.

Porém, no mais recente episódio de imposição do governo norte-americano, fomos surpreendidos com um tarifão de 25%. Logo em seguida, uma impropéria sobretaxa adicional de 12,5%. E mesmo com os EUA acumulando superávit comercial com o Brasil há décadas, negaram-se os fatos, perdeu-se a razão, e o comércio exterior entre os dois países passou naturalmente a ser enfraquecido. 

A equação é simples: imposição gera retração nas exportações brasileiras e cearenses ao mercado norte-americano. E o fato de o Ceará ter sempre exportado a maior parte das suas cargas para os EUA, nos obriga agora a rapidamente ajustar as velas. Sim, precisamos ser realistas diante de mais um episódio no preocupante cenário de instabilidade nas relações Brasil-EUA.

O Ceará está hoje entre os três casos mais críticos de dependência entre todos os estados brasileiros que exportam para os Estados Unidos, ainda mais quando se observa que 96% do que foi atingido pela tarifa dos yankees no Ceará vem da indústria cearense.

Os executivos dos setores mais afetados estão legitimamente preocupados com a real possibilidade de redução na presença de produtos cearenses em solo estadunidense. Afinal, o peso do descabido protecionismo norte-americano compromete sim a performance dos nossos exportadores, mas o lamento verde e amarelo não pode substituir a busca por novos mercados. Então, que os nossos produtores afetados usem sim o crédito ofertado como auxílio pelo governo brasileiro, é legítimo nesse momento de desafio à nossa indústria.

Mas que cada um dos nossos exportadores possa, principalmente, parar, abrir o mapa-múndi e enxergar que existe vida comercial além dos EUA. Diversificar mercados não é luxo estratégico, é proteção contra o risco de dependermos de um único destino — e de um único parceiro comercial — para sustentarmos nossas operações e milhares de empregos. E mesmo que depois os EUA venham a rever todas essas taxas e tarifas, é preciso que nós cearenses aprendamos, de vez, a lição de não mais colocar todas as nossas cargas num mesmo navio.

Thiago Abreu é administrador