Justiça e humanismo

Dona de uma cultura admirável e de uma fala que concilia mansidão e firmeza, Cármen Lúcia se destaca pelo humanismo que exala da grande maioria dos seus votos e também de suas manifestações públicas

Escrito por Valdélio Muniz producaodiario@svm.com.br
29 de Junho de 2026 - 06:00
capa da noticia

Há exatos 20 anos, o Supremo Tribunal Federal (STF) dava posse à segunda ministra da história da maior Corte do País. Indicada em 2006 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Cármen Lúcia Antunes Rocha, natural de Montes Claros (MG), foi antecedida apenas pela ministra Ellen Gracie (aposentada). E, nos 135 anos do STF, apenas a ministra Rosa Weber (já aposentada) somou-se às duas.

Dona de uma cultura admirável e de uma fala que concilia mansidão e firmeza, Cármen Lúcia se destaca pelo humanismo que exala da grande maioria dos seus votos e também de suas manifestações públicas (seja em entrevistas ou palestras), sempre em clara defesa dos direitos fundamentais dos cidadãos e da democracia, valores que evidencia serem parte de sua própria identidade.

Consciente das responsabilidades que sempre lhe foram confiadas como cidadã, mulher, servidora pública (foi procuradora geral do Estado do Minas Gerais) e professora de Direito, a magistrada, que já exerceu quatro vezes a Presidência da República (ao chefiar o Judiciário, como parte da linha sucessória), costuma se posicionar com inegável inteligência, simplicidade (sem linguagem rebuscada), bom humor e rigor na aplicação do direito em seu sentido mais amplo (não apenas a replicação acrítica e automática da lei, mas, sobretudo, dos princípios da justiça).

Apreciadora confessa das diversas artes, como a literatura (em especial a poesia) e a música (fã de samba), Cármen Lúcia comprova, frequentemente, que é claramente possível divergir do entendimento de seus interlocutores, quando necessário em fidelidade às suas convicções humanistas e interpretações jurídicas, sem perder a compostura.

Ciente dos desafios e ameaças ainda postas às mulheres, em pleno século XXI, a ministra já presidiu o STF, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e, por duas vezes, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE, em 2012 e 2024), e não hesita ao expor seu inconformismo com a desigualdade de oportunidades e, pior ainda, com a persistente violência de gênero em diversos ambientes (desde os lares até a própria política e o exercício dos poderes). Tem sido, portanto, essencial não apenas ao cumprimento cotidiano, com mais sensibilidade, do papel do STF, mas ao próprio convencimento de que outras Cármens, ao menos parecidas, fazem suprema falta.