História: Machado de Assis

Escrito por Gonzaga Mota producaodiario@svm.com.br
02 de Agosto de 2025 - 06:00
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Legenda: Professor aposentado da UFC

Certa vez, em Brasília, estava participando de uma roda de amigos. Assuntos variados, bem como temas polêmicos eram debatidos. Política, economia, cultura, religião, futebol etc. Cada um tentava mostrar suas ideias, pensando convencer os demais. Num determinado momento, como bom cearense, resolvi enaltecer os valores da minha querida terra, comparando-a com os do Brasil: maior jurista – Clóvis Beviláqua; maiores maestros – Alberto Nepomuceno e Eleazar de Carvalho; maior escritora – Rachel de Queiroz; maior poeta popular – Patativa do Assaré; maior sacerdote – Padre Cícero; maior romancista – José de Alencar; maior humorista – Chico Anysio; maior historiador – Capistrano de Abreu.

Pediram para eu parar, senão os outros Estados não teriam figuras para mencionar. Atendi ao apelo e disse que o sentimento de cearensidade que me dominava naquele momento era também de brasilidade, de vez que em todas as unidades da Federação existiram, existem e existirão mulheres e homens dignos de nossa admiração, respeito e orgulho. Todavia, a presença de um carioca arrogante, porém boa gente, deu-me estímulo para voltar a falar, pois o cidadão havia esquecido o que de melhor já nos deu o Rio de Janeiro: Machado de Assis.

Moleque mestiço do Morro do Livramento e descendente próximo de escravos, lutou e venceu no Rio na segunda metade do século XIX e no primeiro decênio do século XX. Contista, poeta, cronista, jornalista, Machado foi tudo que uma pessoa poderia ser no exercício das atividades intelectuais. Amou e foi amado, faleceu quatro anos depois de sua mulher. Disse em uma das estrofes do soneto Carolina: "Trago flores – restos arrancados/ da terra que nos viu passar unidos/ e ora mortos nos deixa separados”. Sua obra introspectiva ressalta a ironia, o humor, a beleza, a tragicidade no estilo. Não podemos deixar de ler, dentre outros livros: Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Iaiá Garcia, Memorial de Aires, Helena, O Alienista, onde Simão Bacamarte (o médico) poderia, ainda hoje, colocar muitos brasileiros na Casa Verde (o manicômio). Ao criar a Academia Brasileira de Letras, teve a intenção de fazer com que o pensamento nacional pudesse ser livre, em aspectos históricos, sociais, ideológicos e psicológicos. O brasileiro, por natureza, é machadiano.

Gonzaga Mota é professor aposentado da UFC

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