Escolas, cassinos e ambulâncias

Escrito por Davi Marreiro producaodiario@svm.com.br
21 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: Consultor Pedagógico

Imagine uma cidade onde o jogo clandestino já destruía famílias, gerava dívidas e causava adoecimento. O Estado decide regulamentar essa atividade. Alguns anos depois, comemora a eficiência do sistema público de saúde no tratamento da ludopatia. O paradoxo é evidente: tratar quem adoeceu é um dever do Estado, mas seu “sucesso” não deveria ser medido apenas pela capacidade de cuidar das vítimas. Afinal, uma política pública não dever ser julgada apenas pela qualidade da resposta aos danos, mas também na capacidade de tornar esses danos cada vez menos frequentes.

Quando falamos em danos provocados pelas apostas, é preciso compreender que seus efeitos colaterais não poupam ninguém. Um exemplo recente foi a repercussão de uma questão presente em um curso de formação continuada do Ministério da Educação (MEC) sobre apostas esportivas ("bets"). O material tornou-se alvo de uma discussão pública: de um lado, houve quem acusasse o MEC de incentivar as apostas; de outro, o Ministério esclareceu que a questão defendia justamente a adoção de ações preventivas nos projetos pedagógicos. O fato é que o episódio revelou como os efeitos desse fenômeno já extrapolam o campo da saúde e da economia.

E se usássemos uma lupa para o cotidiano? O Sr. Cândido leva a filha à escola, onde ela participa de um projeto de prevenção aos riscos das apostas on-line. À tarde, acompanha a mãe ao posto de saúde, onde um psicólogo atende pessoas com dependência em jogos. À noite, depois de uma enxurrada de propagandas de bets, assiste ao noticiário: o governo anuncia a arrecadação bilionária obtida com o setor no primeiro trimestre de 2026, recursos que ajudarão a financiar políticas públicas.

Ao desligar a televisão, Cândido percebe que, mesmo sem nunca ter apostado, também faz parte desse “jogo”. Pela manhã, o Estado preveniu. À tarde, tratou. À noite, arrecadou. Se o Estado legitima uma atividade, previne seus riscos e remedia seus danos, o papel da sociedade não pode se limitar ao voto. É preciso também cobrar, fiscalizar e exigir políticas públicas capazes de reduzir o problema, e não apenas administrar suas consequências.

Davi Marreiro é consultor pedagógico