Há algo de revelador no fato de tantas mulheres famosas terem decidido falar publicamente sobre endometriose. Anitta, Larissa Manoela, Patrícia Poeta, Tatá Werneck e, mais recentemente, Juliette estão entre as personalidades que compartilharam experiências relacionadas à doença. A repercussão desses relatos mostra que existe interesse pelo tema. Mas também deveria nos fazer uma pergunta incômoda: por que, durante tanto tempo, foi tão difícil ouvir as mulheres que sentiam dor?
Por décadas, cólicas fortes foram tratadas como algo que fazia parte da condição feminina. Mulheres que precisavam e precisam faltar ao trabalho ou à escola por causa da menstruação eram vistas como exageradas. A dor durante as relações sexuais muitas vezes era silenciada. E dificuldades para engravidar podiam ser enfrentadas sem que a causa fosse devidamente investigada.
Segundo o Ministério da Saúde, a endometriose pode atingir de 5% a 15% das mulheres em idade reprodutiva, e o diagnóstico pode levar, em média, sete anos. Sete anos é tempo demais para alguém conviver com uma doença sem saber o que está acontecendo.
É nesse ponto que os relatos das famosas ganham importância. Não porque a doença tenha se tornado mais relevante por atingir celebridades, mas porque essas histórias ajudam a colocar uma questão de saúde feminina no centro do debate público.
Mas há um cuidado importante nessa discussão. Endometriose não é uma doença que se apresenta da mesma maneira para todas as mulheres. Algumas convivem com dores intensas; outras apresentam sintomas mais discretos e há ainda aquelas que descobrem a condição durante uma investigação de infertilidade.
A verdadeira mudança acontecerá quando uma adolescente puder dizer que sente uma dor menstrual incapacitante e ser levada a sério. Quando uma profissional puder procurar atendimento sem medo de ouvir que precisa simplesmente “aguentar”. Quando uma mulher tentando engravidar tiver acesso à investigação adequada. E quando falar sobre menstruação, dor e fertilidade deixar de ser constrangedor.
Porque a endometriose pode até ter ganhado os holofotes agora. Mas as mulheres convivendo com ela estão esperando para serem ouvidas há muito tempo.